Doreen Edith Dominy Valiente (1922–1999) foi uma das principais escritoras, sacerdotisas e articuladoras da bruxaria pagã moderna. Sua colaboração com Gerald Gardner ajudou a dar forma à liturgia da Wicca Gardneriana, especialmente à Carga da Deusa, mas essa parceria ocupou apenas cerca de quatro anos de sua vida iniciática, entre 1953 e 1957. Nas décadas seguintes, Doreen participou de outras correntes de bruxaria, escreveu obras fundamentais, pesquisou documentos históricos e colaborou na organização pública do movimento pagão britânico. Sua trajetória oferece um panorama excepcional da pluralidade religiosa e intelectual da Arte no século XX.
Dados biográficos
- Nome de nascimento: Doreen Edith Dominy
- Nome da Arte: Ameth
- Nascimento: 4 de janeiro de 1922, Colliers Wood, Mitcham, Surrey, Inglaterra
- Iniciação gardneriana: solstício de verão de 1953, por Gerald Gardner
- Participação no círculo de Gardner: de 1953 até a separação em 1957
- Outras experiências iniciáticas: Coven of Atho (1963) e Clan of Tubal Cain (1964)
- Falecimento: 1º de setembro de 1999, Hove, Sussex, Inglaterra

Infância, formação e os primeiros encontros com a magia
Doreen nasceu em uma família britânica de formação cristã. Seu pai, Harry Dominy, trabalhava com desenho técnico e construção; sua mãe, Edith Annie Richardson, tinha uma educação religiosa rígida. A infância foi marcada por mudanças de residência entre a região de Londres, Surrey e o sul da Inglaterra. Na memória familiar havia também histórias sobre parentes da região de New Forest a quem se atribuíam relações com espíritos, fadas e práticas de cura. Mais tarde, Doreen recuperaria esses relatos em seus cadernos e escritos, interessada nas continuidades e transformações do folclore local.
Ela relatava experiências visionárias desde a infância, entre elas uma vivência intensa do luar e da paisagem em Horley, por volta dos nove anos, e uma percepção de uma realidade espiritual por trás do mundo visível. Essas experiências pertencem à maneira como Doreen compreendia sua própria história; não são apresentadas aqui como acontecimentos sobrenaturais demonstrados. Adolescente, interessou-se por feitiços populares, ervas, imagens mágicas e livros de bruxaria, incluindo Aradia, de Charles Godfrey Leland, que afirmava ter encontrado em uma biblioteca pública.
Estudou por algum tempo num colégio católico de Wimbledon, mas abandonou os estudos aos quinze anos, contrariando a família. Gostaria de ter seguido uma formação artística; acabou trabalhando em empregos administrativos e desenvolveu autonomamente sua cultura literária e seu conhecimento de línguas. A independência intelectual que marcou sua produção posterior pode ser percebida nessa formação irregular e numa forte disposição para investigar a origem das afirmações alheias.
A Segunda Guerra Mundial e o trabalho em Bletchley Park
A guerra atravessou profundamente sua juventude. Em 1939 Doreen trabalhava como datilógrafa para um órgão público britânico e, durante o conflito, foi empregada na estrutura de inteligência associada a Bletchley Park. Philip Heselton localizou registros de sua atuação como funcionária civil temporária do Foreign Office, com atribuições de tradução. Os documentos a vinculam a setores como Elmers School, Hut 18, Block G e, posteriormente, a Berkeley Street, em Londres.
Em janeiro de 1941 ela se casou com o marinheiro grego Joanis Vlachopoulos. Poucos meses depois, em 13 de junho, ele morreu quando o navio mercante Pandias foi torpedeado no Atlântico. Em 29 de maio de 1944, Doreen se casou com Casimiro Valiente, espanhol que havia lutado pela República na Guerra Civil Espanhola e depois servido na Legião Estrangeira Francesa. Após a guerra, o casal se estabeleceu em Bournemouth. Casimiro não compartilhava diretamente os interesses esotéricos de Doreen, mas o casamento atravessaria quase três décadas, até a morte dele em 1972.

Bournemouth: teosofia, Golden Dawn e experiências mágicas anteriores a Gardner
Na segunda metade da década de 1940, Doreen estudou sistematicamente espiritualismo, teosofia, reencarnação, tarô e magia cerimonial. Frequentou ambientes espiritualistas, interessou-se por Helena Blavatsky e encontrou em The Mystical Qabalah, de Dion Fortune, uma referência decisiva. A leitura de Fortune levou-a à obra de Aleister Crowley, especialmente Magick in Theory and Practice, que consultou numa biblioteca. Nessa época, ela também se correspondia ou se encontrava com praticantes locais de ocultismo, num ambiente em que o acesso a materiais rituais ainda era restrito.
Um episódio notável ocorreu em 1952: após descobrir que a viúva do médico Henry D. Kelf pretendia se desfazer de seus papéis mágicos, Doreen obteve uma coleção de cadernos, espadas e instrumentos rituais. Os manuscritos estavam ligados à ordem Alpha et Omega, um dos desdobramentos da Hermetic Order of the Golden Dawn. Doreen já conhecia o sistema da Golden Dawn pela leitura e pelo estudo particular. Heselton observa que não há evidências de sua iniciação formal em um templo da ordem.
Ela também praticava magia com um artista identificado pelo nome mágico Zerki. Empregavam instrumentos cerimoniais, círculos e espelhos negros para operações visionárias. Foi nesse contexto que ela adotou o nome Ameth, associado ao vocabulário mágico enoquiano. Portanto, ao procurar Gardner em 1952, Doreen já possuía estudos, instrumentos, experiências rituais e uma visão própria da magia. Seu ingresso na bruxaria gardneriana correspondeu a uma nova etapa de um percurso esotérico em andamento.
O encontro com Gardner e a iniciação de 1953
Uma reportagem de Allen Andrews, intitulada Witchcraft in Britain, publicada na revista Illustrated em setembro de 1952 (disponível em nosso Acervo Digital), despertou seu interesse por um grupo de bruxaria que supostamente sobrevivia na região de New Forest. Doreen escreveu a Cecil Williamson, então ligado ao museu de bruxaria na Ilha de Man. Williamson encaminhou sua carta a Gerald Gardner, que a recebeu no fim de 1952 na casa de Edith Woodford-Grimes, conhecida como Dafo, em Highcliffe. A conversa ocorreu num ambiente discreto, sem a pressa de uma iniciação imediata.
No solstício de verão de 1953, Gardner iniciou Doreen na casa de Dafo. Na mesma ocasião, Doreen iniciou Zerki, seguindo o princípio de alternância entre mulheres e homens na transmissão iniciática gardneriana. No dia seguinte, acompanhou Gardner e Edith a uma cerimônia druídica em Stonehenge. Mais tarde, passou a frequentar o círculo reunido na cabana ritual de Bricket Wood e no apartamento londrino de Gardner, assumindo na prática as funções de alta sacerdotisa ao lado dele.

A contribuição litúrgica: a Carga da Deusa e o Livro das Sombras
O trabalho de Doreen foi essencial para a forma assumida pela liturgia gardneriana. Já durante sua iniciação reconheceu trechos de Aleister Crowley e de Charles Godfrey Leland na Carga da Deusa. Ao copiar o Livro das Sombras, identificou outras fontes, entre elas textos de magia cerimonial, literatura maçônica, escritos de Margaret Murray e materiais modernos usados por Gardner na composição dos ritos. A identificação dessas fontes não a afastou do projeto religioso: levou-a a revisar os textos com maior unidade de linguagem e expressão poética.
Antes da colaboração de Doreen, Gardner já havia reunido um texto chamado Leviter Veslis (“Erguer o Véu”), registrado em seus primeiros manuscritos rituais e composto a partir de Aradia, de Charles Godfrey Leland, de escritos de Aleister Crowley e de outras fontes. Trabalhando sobre essa base, Doreen produziu uma versão versificada e, posteriormente, uma versão em prosa da Carga da Deusa. A versão em prosa preservou passagens substanciais tanto de Leland quanto de Crowley, incorporando também formulações próprias e outras referências. Descrever esse processo como uma simples eliminação do material de Crowley seria impreciso. Entre suas contribuições mais conhecidas está a passagem em que a Deusa se apresenta como alma da natureza. Ronald Hutton destacou a originalidade literária do trabalho e sua importância para a concepção da divindade na Wicca. Doreen também elaborou e revisou cânticos, invocações e textos de celebração, inclusive um cântico para o ritual de Yule de 1953, adaptado de Carmina Gadelica, de Alexander Carmichael, que Gardner publicou em Witchcraft Today (1954). A Runa das Bruxas também integra o repertório ritual de sua autoria ligado à colaboração com Gardner.
O trabalho alcançou igualmente a produção editorial de Gardner. Doreen colaborou com pesquisas, correspondência, argumentos e redação para The Meaning of Witchcraft, publicado em 1959, quando os dois já não trabalhavam juntos. Durante 1955 e 1956 ela investigou especialmente matérias sensacionalistas de imprensa e acusações dirigidas aos bruxos. Sua contribuição ultrapassou o embelezamento de fórmulas antigas: ajudou a organizar uma linguagem religiosa que seria transmitida e reinterpretada por sucessivas gerações.

A separação de 1957: publicidade, autoridade e as leis do coven
A colaboração direta entre Doreen e Gardner foi relativamente breve: de sua iniciação em junho de 1953 até a ruptura do grupo em 1957, aproximadamente quatro anos. A convivência já estava desgastada em 1956. Doreen e outros membros questionavam a exposição frequente de Gardner na imprensa, temendo que entrevistas, fotografias e revelações provocassem novos ataques públicos. Havia também divergências sobre a iniciativa de Gardner de aceitar e iniciar candidatos sem consulta suficientemente ampla ao coven. A entrada de Jack Bracelin e Dayonis foi um dos focos dessa disputa.
Doreen, Ned Grove e Derek Boothby deixaram de participar das reuniões do grupo de Gardner depois de fevereiro de 1957. Em julho, Doreen fez circular uma proposta de treze regras, redigida principalmente por Ned Grove, que exigia maior participação coletiva nas decisões, cuidado com a admissão de candidatos e observância do sigilo. Gardner respondeu apresentando supostas Old Laws da Arte. Uma das disposições defendia a substituição de uma alta sacerdotisa por outra mais jovem; Doreen suspeitou que as leis haviam sido preparadas para neutralizar as críticas e afastá-la da liderança.
As versões retrospectivas do conflito não coincidem em todos os detalhes. A documentação, porém, permite reconhecer problemas concretos de publicidade, governo do coven e interpretação da autoridade iniciática. A separação não significou o abandono da bruxaria nem uma hostilidade permanente: Heselton registra uma reconciliação cordial por volta de 1959, e Doreen prestou homenagem pública a Gardner depois de sua morte, em 1964. Ela preservou o reconhecimento de seu papel histórico sem renunciar a críticas às suas decisões.
Sussex, pesquisa histórica e o primeiro livro
Depois de se mudar para Brighton em 1956, Doreen aprofundou o contato com a paisagem, o folclore e a documentação de Sussex. Visitava sítios antigos, investigava narrativas locais e consultava registros de julgamentos por bruxaria. O resultado apareceu em 1962, em Where Witchcraft Lives, uma obra que combina crenças sobre a sobrevivência da Arte, pesquisas de história regional e descrições de práticas contemporâneas. É um testemunho de sua religiosidade e também um trabalho pioneiro de investigação documental realizado por uma participante da bruxaria moderna.
Ronald Hutton chama atenção para o emprego de fontes judiciais originais no estudo das acusações de bruxaria em Sussex, incomum entre os autores neopagãos da época. Ao mesmo tempo, o livro conserva hipóteses de continuidade histórica hoje amplamente questionadas e, em certas passagens, aceita relatos de imprensa sem verificação suficiente. Sua importância está tanto nas descobertas quanto na possibilidade de observar Doreen em movimento entre convicção religiosa, folclore, experiência e pesquisa histórica.
O Coven of Atho e a busca por outras tradições
Doreen nunca restringiu sua curiosidade a uma única linhagem. No fim dos anos 1950 investigou as alegações de Charles Cardell, que dizia preservar uma antiga tradição de Wiccens. Embora mantivesse contato para compreender seus ensinamentos, desconfiou de afirmações inconsistentes e acabou rejeitando sua autoridade. Essa experiência se relaciona a seu encontro posterior com Raymond Howard, praticante que difundia o chamado Coven of Atho e um conjunto de ensinamentos associados a uma cabeça ritual do deus Atho.
A partir de 1962, Doreen recebeu lições por correspondência de Howard e, no Halloween de 1963, foi iniciada no grau de Sarsen do Coven of Atho. Copiou cuidadosamente os materiais recebidos e fez um desenho da célebre cabeça de Atho, que desapareceria em 1967. Heselton mostra que vários elementos desse sistema provinham de fontes modernas identificáveis, como Dion Fortune, Leland, Lewis Spence e o próprio Gardner. A narrativa de uma transmissão ancestral permanece sem comprovação documental. Ainda assim, a experiência deixou registros valiosos em seus manuscritos e forneceu motivos simbólicos à sua poesia.
Robert Cochrane e o Clan of Tubal Cain
Em 1964, Doreen conheceu Robert Cochrane, nome adotado por Roy Bowers, fundador do grupo conhecido como Clan of Tubal Cain. Cochrane afirmava haver herdado sua bruxaria de uma tradição familiar antiga, alegação que precisa ser examinada criticamente. Doreen reconheceu nele um praticante de grande imaginação e força ritual. No Halloween de 1964, participou de uma iniciação conduzida por ele nas colinas de Sussex, passando a conhecer uma forma de bruxaria bastante diferente daquela praticada em Bricket Wood.
Os ritos de Cochrane utilizavam capas com capuz, fogueiras, danças circulares, cânticos sem palavras, o stang — estangue ou estaca bifurcada — e o caldeirão. A prática enfatizava o contato com a paisagem, a meditação e a experiência direta dos deuses. Doreen recordaria esses encontros como alguns dos rituais ao ar livre mais intensos de sua vida. Também registrou comunicações visionárias atribuídas a um suposto bruxo falecido chamado John Brakespeare, cuja natureza ela própria considerava incerta.
O vínculo com Cochrane terminou diante de ataques cada vez mais agressivos dele à Wicca Gardneriana e aos seus praticantes. Doreen recusou sua retórica hostil e se afastou do grupo. Em 1966, Cochrane morreu após ingerir substâncias tóxicas; ela recebeu a notícia com profunda tristeza e escreveu o poema Elegy for a Dead Witch. A relação, apesar do desfecho, continuou a influenciar sua concepção de ritual, e seus conhecimentos ajudariam mais tarde na edição de Witchcraft: A Tradition Renewed, de Evan John Jones, publicado em 1990.
Witchcraft Research Association, Pentagram e o diálogo entre covens
Após a morte de Gardner, Doreen participou de iniciativas para aproximar bruxos de diferentes correntes. A Witchcraft Research Association (WRA), articulada por Gerard Noel em 1964, pretendia criar canais de pesquisa, registro e cooperação. Sybil Leek ocupou inicialmente sua presidência, mas se afastou; Doreen exerceu influência prática na associação, embora sem assumir formalmente a presidência. Sua carta de boas-vindas abriu o primeiro número de Pentagram, lançado em agosto daquele ano.
No jantar promovido pela revista em 3 de outubro de 1964, Doreen falou sobre os ritos sazonais, a Deusa e o Deus, a diversidade dos covens e a necessidade de compreensão mútua. Sustentava que a pluralidade de práticas poderia enriquecer a Arte. A revista publicou textos e correspondência seus e deu espaço tanto a bruxos gardnerianos quanto a grupos independentes. A WRA nunca se consolidou institucionalmente como se esperava e Pentagram mudou de rumo, mas a tentativa foi significativa: Doreen procurava articular redes de pesquisa e convivência num campo atravessado por disputas de autenticidade.

Pagan Front, Pagan Federation e a defesa pública do paganismo
As preocupações com liberdade religiosa também orientaram sua intervenção pública. Em 1970, diante de propostas e comentários parlamentares sobre a possível punição de pessoas que se declarassem praticantes de bruxaria, Doreen buscou diálogo direto com o deputado Gwilym Roberts. Nesse período, acompanhou os esforços de John Score para criar uma representação pública do paganismo, inicialmente denominada Pagan Front. Participou da discussão de objetivos, símbolos e princípios da organização.
Uma carta de Doreen de outubro de 1970 propunha três eixos: uma ética de liberdade responsável, a reencarnação e a responsabilidade pessoal, e a reverência à natureza compreendida por meio das forças complementares da Deusa e do Deus. Esse texto está na origem dos posteriores três princípios associados à Pagan Federation, embora a formulação institucional tenha passado por modificações. Em 1º de maio de 1971, ela presidiu a primeira reunião de membros do Pagan Front, realizada na casa de Madge Worthington. Em 1981, a associação adotou o nome Pagan Federation. Sua participação liga a experiência dos covens à construção de uma voz pública para diferentes religiões pagãs.
Livros, correspondência, pesquisa e debates nas décadas finais
Doreen publicou guias e obras de referência que circularam muito além dos círculos iniciáticos. An ABC of Witchcraft Past and Present (1973) reuniu verbetes de história, folclore, práticas e personagens; Natural Magic (1975) apresentou formas de magia popular e cotidiana; Witchcraft for Tomorrow (1978) ofereceu reflexões e rituais para leitores que desejavam praticar a Arte; e The Rebirth of Witchcraft (1989) combinou memória pessoal e história do movimento. Seus livros foram importantes para praticantes solitários e novos grupos que não tinham acesso direto a um coven.

Em paralelo, manteve extensos cadernos, recortes de imprensa, correspondência com sacerdotisas e escritores e um interesse persistente pelas origens documentais da bruxaria gardneriana. Sua investigação sobre Dorothy Clutterbuck, personagem ligada ao relato de iniciação de Gardner, apareceu em apêndice de The Witches’ Way (1984), de Janet e Stewart Farrar. A descoberta de uma pessoa histórica com esse nome não comprova, por si, sua participação em um coven; Doreen contribuiu para transformar uma tradição oral em uma questão passível de pesquisa arquivística.
A biografia também comporta um capítulo difícil: entre 1973 e 1974, Doreen se filiou ao National Front, partido britânico de extrema direita, e manteve contatos com círculos nacionalistas racialistas. Renunciou à filiação em outubro de 1974. Heselton procura compreender esse episódio à luz de seu interesse por investigação e identidade cultural, mas suas fontes incluem formulações sobre raça e nação que merecem avaliação crítica, sem justificações retrospectivas. Reconhecer essa contradição integra uma apresentação histórica responsável de sua trajetória.
Nas últimas décadas, Doreen colaborou com Janet e Stewart Farrar, Patricia Crowther, pesquisadores e organizações pagãs, participou de debates sobre feminismo, ecologia e religião e continuou a escrever poesia. Ao editar Witchcraft: A Tradition Renewed (1990), colaborou com Evan John Jones na apresentação de ensinamentos associados ao Clan of Tubal Cain. Em sua conferência à Pagan Federation de 1997, revisitou criticamente a experiência com Gardner e Cochrane. Faleceu em 1º de setembro de 1999, em Hove. Seus cadernos, objetos rituais, correspondência e textos foram preservados por pessoas próximas e, posteriormente, pela Doreen Valiente Foundation.
O lugar de Doreen Valiente na história da Arte
A influência de Doreen é particularmente visível na Wicca Gardneriana, mas seu legado abrange a bruxaria tradicional contemporânea, a pesquisa histórica, a poesia religiosa, a divulgação editorial e o paganismo organizado. Ela ajudou a formular textos transmitidos nos covens e, depois, escreveu para leitores de experiências e tradições muito diferentes. O período de convivência com Gardner foi decisivo e curto; a maior parte de sua obra escrita e de sua atuação pública foi produzida depois da separação. Compreender Doreen exige acompanhar essa trajetória completa, incluindo as alianças, controvérsias, investigações e revisões pelas quais sua ideia da Arte se desenvolveu.
Publicações: uma linha do tempo
A cronologia distingue os livros de autoria de Doreen, suas colaborações editoriais e as coletâneas póstumas.

1962 — Where Witchcraft Lives
Primeiro livro, dedicado à bruxaria em Sussex. Combina pesquisa em registros históricos, folclore, lugares da paisagem e práticas religiosas contemporâneas.

1973 — An ABC of Witchcraft Past and Present
Obra de referência organizada em verbetes sobre história, divindades, tradições e práticas de bruxaria.

1975 — Natural Magic
Apresentação de práticas e conceitos de magia popular, dos ritmos naturais às técnicas tradicionais de encantamento.

1978 — Witchcraft for Tomorrow
Exposição de princípios e práticas da bruxaria voltada também a leitores sem acesso a um coven, incluindo material ritual.
Publicação e contribuição editorial
1984 — The Witches’ Way (colaboração)
Livro de Janet e Stewart Farrar que contém o estudo de Doreen intitulado The Search for Old Dorothy, dedicado à pesquisa sobre Dorothy Clutterbuck.

1989 — The Rebirth of Witchcraft
Sua principal reconstrução memorialística e histórica da bruxaria moderna, com relatos sobre Gardner, Cochrane e os debates de seu tempo.

1990 — Witchcraft: A Tradition Renewed (com Evan John Jones)
Evan John Jones apresentou ensinamentos e rituais associados ao Clan of Tubal Cain; Doreen editou, reorganizou e contribuiu com textos e poemas.

2000 / 2014 — Charge of the Goddess / The Charge of the Goddess: The Poetry of Doreen Valiente
Coletânea póstuma de poemas, publicada inicialmente em 2000 e ampliada em 2014. A capa reproduzida é a da edição ampliada.
Documentos relacionados no Acervo Digital
- “A bruxaria em 1962” — texto de Doreen Valiente
- Carta de boas-vindas à Pentagram (1964)
- Discurso no jantar da Pentagram (1964)
- Carta a Charles Clark (14 de setembro de 1964)
- Entrevista à FireHeart (1991)
- Conferência à Pagan Federation (1997)
Referências bibliográficas
- HESELTON, Philip. Doreen Valiente: Witch. Woodbury, MN: Llewellyn Publications, 2016. Especialmente caps. 2–11, 14, 17 e 19, e apêndices III–IV.
- HESELTON, Philip. Witchfather: A Life of Gerald Gardner. Vol. 2: From Witch Cult to Wicca. Loughborough: Thoth Publications, 2012. Especialmente caps. sobre Doreen, revisão dos rituais e ruptura de 1957.
- HUTTON, Ronald. The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft. Edição revista. Oxford: Oxford University Press, 2019.
- VALIENTE, Doreen. Where Witchcraft Lives. London: Aquarian Press, 1962.
- VALIENTE, Doreen. The Rebirth of Witchcraft. London: Robert Hale, 1989.
- JONES, Evan John; VALIENTE, Doreen. Witchcraft: A Tradition Renewed. London: Robert Hale, 1990.
- ARANTES, Flávio Lopes. Raízes da Wicca Gardneriana.
- Doreen Valiente Foundation — biografia e documentação.
- The Wica — coleção de documentos e notícias de época.
Créditos das fotografias: British Traditional Wicca.
