ACERVO DIGITAL · DOCUMENTOS HISTÓRICOS

A bruxaria na Grã-Bretanha

Illustrated · 27 de setembro de 1952 · 1952

Apresentação histórica

Esta reportagem de Allen Andrews apresenta Cecil Williamson e seu museu de bruxaria na Ilha de Man, além de descrever grupos, ideias e práticas atribuídos à bruxaria contemporânea britânica. Sua importância particular para a história gardneriana está no fato de Doreen Valiente ter conhecido essa reportagem e, a partir dela, estabelecido contato com Williamson, que posteriormente lhe apresentou Gerald Gardner.

Repercussão histórica documentada

Em um discurso à Pagan Federation em 22 de novembro de 1997, Doreen Valiente confirmou ter lido este artigo de Illustrated, de 27 de setembro de 1952, e escrito a Cecil Williamson, que encaminhou sua mensagem a Gerald Gardner. A correspondência resultou no primeiro encontro dos dois em 1952, antes da iniciação de Valiente no ano seguinte. No mesmo discurso, ela citou uma passagem deste artigo sobre a Deusa e o Senhor da Morte como evidência de que a representação da divindade feminina já circulava antes de sua entrada na Arte.

Fonte primária: Doreen Valiente, discurso na conferência nacional da Pagan Federation (22 de novembro de 1997). Ler depoimento completo ↗.

Referência e fac-símile

Publicação: Illustrated, 27 de setembro de 1952.

Autoria: Allen Andrews.

Título original: Witchcraft in Britain.

Paginação original: 19–21, 41–42.

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Tradução integral em português

Uma carta expressa traz a cópia de uma maldição e um pedido de orientação… A arte negra não morreu. Apenas passou a permanecer oculta.

Uma carta expressa traz uma cópia de uma maldição e um pedido de orientação… A arte negra não morreu. Apenas passou a permanecer oculta.

Cecil Williamson, que dirige a “Cozinha das Bruxas”, em Castletown, na Ilha de Man, é consultor de bruxaria. Essa é sua ocupação em tempo integral. Quando, por exemplo, recebe uma carta expressa implorando que remova um encantamento lançado contra quem a escreveu, conhece suficientemente as tradições da bruxaria para preparar um remédio.

Uma mulher que lhe escreveu recentemente anexou um texto malévolo, escrito em caracteres mágicos, recebido de uma antiga amiga. O conteúdo sugeria que, como a remetente estava prestes a se casar, a antiga amizade havia se rompido. Pequenos acidentes a convenceram de que uma maldição estava agindo, e ela exigiu um contraencantamento contra a pessoa que lhe desejava mal.

Williamson decidiu confeccionar uma boneca, ou efígie, representando a bruxa que lançara a maldição. A base era argila do leito de um rio misturada à água de uma cascata. Recolheu vermes de água salgada para representar as vísceras da bruxa, resina de pinheiro para a essência da vida, bagas de hera Hibben que cresciam num cemitério para os olhos e quartzo branco de um alto penhasco para os dentes e ossos.

Queimou os corpos de três sapos pretos, de uma ratazana marrom prenhe e de um galo preto sobre um altar dedicado ao sol. Em outro altar, dedicado à lua, queimou uma segunda mistura, cujo ingrediente mais agradável eram ervas. Incorporou as cinzas à efígie, na qual soprou simbolicamente o hálito da vida, e passou-a pelos elementos terra, ar, fogo e água.

Cravou fragmentos de vidro na efígie, envolveu-a numa mortalha e a enviou à cliente. Ela foi instruída a enterrá-la numa sepultura rasa, descoberta, próxima à casa da bruxa, acender uma fogueira sobre ela e entoar um poderoso contraencantamento prescrito. Assim, a força da bruxa se esgotaria, e a maldição original fracassaria.

Por que Williamson se dá a tanto trabalho? Seu interesse é em parte profissional, em parte acadêmico. Ele havia encontrado o feitiço num livro antigo e tinha curiosidade em empregá-lo. Explicou à cliente, para que ela ficasse devidamente impressionada, todas as complicações da fórmula utilizada em seu benefício, e vê pouca diferença entre esse procedimento e métodos mais modernos de persuadir alguém, por uma espécie de hipnose ou sugestão, de que a má sorte imaginada o abandonou.

Mas esse é apenas um aspecto. Qual é a importância da prática da bruxaria na Grã-Bretanha de hoje? Sabe-se, por exemplo, que, além de diversos lugares ao longo da costa sul, existem grupos de bruxos atuando em Liverpool, Barnet e Cumberland.

E, há relativamente poucos anos, em 14 de fevereiro de 1915 (Candlemas pelo calendário antigo), Charles Walton, trabalhador rural de setenta e quatro anos, foi encontrado morto numa vala perto de Meon Hill, em Warwickshire. Sua garganta havia sido cortada com a própria foice de aparar sebes, e ele estava preso ao solo, de bruços, por um forcado de feno cravado em seu corpo até as raízes abaixo… A maneira como o forcado foi utilizado era exatamente semelhante à do assassinato, em 1875, de Ann Turner, na vizinha Long Compton, morta por um homem “porque ela era uma bruxa”, e também à de um ataque anterior com forcado, no qual John Haywood atacara uma velha. Ele dissera que mataria “todas as dezesseis bruxas” de Long Compton.

Na região, acredita-se discretamente que três homens e quatro mulheres, sobreviventes de um culto praticado nas proximidades de Meon Hill, continuam a se reunir. O assassinato de Charles Walton, ainda não solucionado, talvez tenha resultado de uma disputa interna entre um grupo de bruxos.

À meia-noite de 12 de maio de 1949, na noite de lua cheia mais próxima à Noite de Walpurgis (e Véspera de Maio pelo calendário antigo), um observador escondido junto às Pedras Rollright, na divisa de Oxfordshire, cerca de uma milha acima de Long Compton, viu cinco figuras encapuzadas prestarem homenagem à solitária Pedra do Rei, que os arqueólogos consideram um símbolo de fertilidade. Elas entoaram cânticos enquanto dançavam em sentido anti-horário ao redor da pedra e, então, prostraram-se diante dela. Por fim, ergueram-se e se apoiaram contra a pedra, com as mãos entrelaçadas e estendidas sobre a cabeça. Para isso, precisaram escalar a cerca de oito pés ali instalada para proteger a pedra de entalhes feitos por curiosos ou da retirada de fragmentos destinados a ingredientes de antigas medicinas.

Mais recentemente — precisamente ao meio-dia de 7 de setembro de 1952 —, um homem de uma aldeia em Gloucestershire, entre Meon Hill e Long Compton, admitiu que por vezes comia um ninho de camundongos-do-campo recém-nascidos, ainda sem pelos, e acompanhava essa refeição estranha com quase um litro de sidra. Testemunhas disseram que ele a utilizava como introdução bem-humorada a um ritual que culminava em profecias declamadas em rimas desajeitadas. Mas ele contestou esse testemunho, dizendo com simplicidade e astúcia: “É ilegal prever o futuro, não é?”

A concentração local desses exemplos de formas de bruxaria moderna não pretende apontar aquela região, visível da Pedra dos Quatro Condados, em Paxford, como um foco particular de magia — embora a área talvez seja uma das poucas que possuem um vigário que afirma conhecer três bruxas entre os membros de sua congregação. Ela demonstra, contudo, a amplitude e os diferentes graus de gravidade da observância daquilo que alguns chamam de Antiga Religião.

Essa observância não se limita a uma única parte da Grã-Bretanha, nem exclusivamente às áreas rurais. É verdade que as práticas mais sofisticadas — e também as mais perversas — são encontradas nas grandes cidades. Mas é possível citar em Londres, por exemplo, tanto orgias envolvendo narcóticos em Maida Vale, que geralmente terminam na chantagem dos participantes, quanto a preparação ritual de simples infusões de ervas na Old Kent Road — embora talvez alguns clientes desse círculo estejam interessados sobretudo em afrodisíacos ou poções amorosas.

Magia contra Hitler

Pois a bruxaria não se resume à Missa Negra, ao sangue e à luxúria que, segundo rumores, teriam ocorrido em South Audley Street, Londres, assim como nos templos remotos de Aleister Crowley, a célebre “Grande Besta”. Ela também está no ato de dar um nó no lenço para guardar a magia da memória. E não se pretendia fazer o mal na noite de primeiro de agosto (Lammas) de 1940, quando parecia iminente uma invasão da Grã-Bretanha: uma convocação extraordinária foi enviada aos membros do Coven Meridional das Bruxas Britânicas. Dezessete homens e mulheres compareceram a uma clareira na New Forest.

As tochas cerimoniais foram habilmente mantidas com chamas baixas, mas acesas, pelos integrantes que também atuavam como vigilantes de ataques aéreos, e o coven iniciou ritos destinados a produzir o maior “cone de poder” que já haviam gerado, direcionando-o contra Hitler. O auge de um longo ritual veio quando os participantes, num estado de intensa excitação, projetaram seu desafio em gritos ritmados e uníssonos: “Você não pode atravessar o mar, você não pode atravessar o mar. Não conseguirá vir, não conseguirá vir.” Os membros mais velhos do coven, de uma geração em que a magia era aceita sem espanto em certos lares, lembravam histórias de família sobre um rito semelhante contra “Boney”, durante a ameaça de invasão napoleônica.

Tradicionalmente, um coven é composto de treze pessoas de ambos os sexos, uma das quais exerce a função de dirigente. Antes das perseguições às bruxas, o coven organizava festas públicas e populares nos grandes dias da Véspera de Maio, Halloween, Candlemas e Lammas — os sabás das bruxas, às vezes chamados de folguedos. Suas reuniões privadas para tratar de assuntos internos eram chamadas de esbats. A perseguição acabou com os sabás “abertos” e fez crescer a discrição que envolveu as reuniões posteriores.

Atualmente, os covens em geral não conseguem reunir treze integrantes de uma mesma localidade. Os bruxos hereditários, aos quais os conhecimentos foram transmitidos, compõem parte dos covens, cuja média de idade é relativamente elevada. Para completar seus números, convidam certos entusiastas conhecidos a se juntarem a eles. Esses interessados fizeram estudos mais amplos do que os habitantes locais e constituem a ala intelectual de um coven.

Deusa da fertilidade

Os deuses das bruxas são os mais antigos de todos: fertilidade e morte. Hoje, um coven é dirigido por uma mulher porque houve uma mudança de ênfase em favor da deusa da vida — uma figura feminina — e em detrimento do senhor da morte. Há momentos de uma cerimônia em que se acredita que o deus entra no corpo de quem oficia. Durante os ritos de fertilidade da Véspera de Maio, a sacerdotisa pode ser considerada a própria deusa. Nas celebrações de inverno, ela coloca por um instante as mãos nos ombros opostos para representar os ossos cruzados sob o crânio — símbolo da divindade que preside —, mas imediatamente abre os braços e se posiciona com as pernas afastadas para formar o pentágono da vida.

Em geral, os bruxos modernos acreditam que alcançarão um poder controlado por meio do ritual, parte do qual é primitivo. Ao observar antigos costumes, obtêm a satisfação sentimental que outras pessoas encontram na celebração do Natal. Sentem que suas reuniões lhes proporcionam estímulo emocional e a boa sorte à moda antiga.

Há, é claro, os praticantes “puros”, que baseiam seus rituais nas instruções recebidas dos mais velhos, complementadas com as Clavículas de Salomão, livro obscuro que chega a ser negociado por cerca de sessenta guinéus. Existem também adeptos excessivamente sofisticados que dão à magia negra sua notoriedade permanente. Diz-se que uma ordem do Vaticano de 1938, para melhor proteção da hóstia consagrada reservada nos tabernáculos dos altares, reconheceu a frequência de roubos cometidos para fins blasfemos.

Magia em Brighton

Foram observados círculos que praticam magia de natureza cabalística complexa, entre outros lugares, em Brighton, onde se utiliza uma grande garagem; na Finchley Road, em Londres, onde os procedimentos se aproximam do erotismo; num cemitério rural em Yorkshire; e na Brompton Road, em Londres, onde foram lançados encantamentos amorosos e feitiços de vingança, mas onde um purista do ritual se ofendeu com o uso de um fogareiro a gás, em vez de uma chama “natural”, para amolecer imagens de cera.

As observâncias modernas menos sofisticadas da Antiga Religião são exemplificadas pelo pastor de ovelhas de Steyning, Sussex, que protege seus rebanhos realizando observâncias rituais voltadas à lua dentro de “anéis de fadas” e declarou sem rodeios a quem lhe perguntou: “Seria um perfeito idiota quem não fizesse isso.” De fato, a maioria das pessoas do campo que acreditam na força da magia tem objetivos práticos.

As bruxas do passado eram sábias na utilização das ervas e no tratamento do gado. Foram substituídas pela ascensão do prestígio do médico e do veterinário. E existem dezenas de exemplos contemporâneos de pessoas que colhem ervas ou tratam objetos seguindo um cerimonial de ação tradicional: o movimento descendente de uma faca nova, por exemplo; a recitação de antigos encantamentos rimados; o costume de vestir-se com os cabelos soltos e os pés descalços.

Uma investigação necessária

Para outros, entretanto, as observâncias são simplesmente exercícios espirituais, mais satisfatórios que os credos modernos. Um grupo desenvolveu, a partir do estudo de livros sobre práticas antigas, uma bela cerimônia de Candlemas nas colinas South Downs. Onze pessoas utilizam o Círculo dos Druidas, próximo a Keswick, para cerimônias antigas e aparentemente sinceras. “A pessoa se sente tão próxima de Deus”, explica um deles. Mas não há dúvida de que muitas das práticas atuais são indesejáveis e precisam de mais investigação e regulamentação.

O trabalho de Cecil Williamson é, reconhecidamente, em grande parte a técnica de pesquisa de um estudioso. Ele descobre que sua “prática” lhe proporciona um conhecimento cada vez mais amplo das teorias de bruxaria existentes hoje.

Trata-se, certamente, de um caminho indireto para um pesquisador, mas talvez seja, para ele e outros semelhantes, o único método de superar a reserva daqueles que hoje acreditam em magia. Há, porém, um desenvolvimento que merece reflexão: ele ocorre quando o estudioso da bruxaria desperta um dia e descobre que se tornou um devoto.

Notas editoriais

Nota de transcrição: O parágrafo introdutório em itálico foi recuperado diretamente da abertura do fac-símile (p. 19); ele não consta na transcrição Word de referência. As fotografias e respectivas legendas permanecem consultáveis no PDF original.

Notas históricas: O texto fornecido para transcrição registra o assassinato de Charles Walton como ocorrido em 1915; outras fontes históricas o situam em 14 de fevereiro de 1945. A divergência é assinalada sem alteração silenciosa do documento. A narrativa do ritual de 1940 contra Hitler deve ser lida como testemunho jornalístico de 1952, e não como comprovação independente do episódio.

Nota de revisão da fonte: O original contém a narrativa publicada em 1952 sobre um suposto ritual de resistência a Hitler em agosto de 1940; ela será apresentada como relato jornalístico, com nota contextualizada, sem tratar sua historicidade como estabelecida. O artigo ocupa as páginas 19–21 e 41–42, com fotografias e anúncios entre os trechos.

O fac-símile reúne cinco páginas, com a reportagem distribuída entre fotografias, legendas e anúncios. A futura transcrição deverá recompor a ordem correta da matéria, mantendo as legendas apartadas e tratando hipóteses históricas e relatos da imprensa como testemunhos documentais, não como fatos automaticamente demonstrados.

Créditos e navegação

Fac-símile digital preservado pelo arquivo The Wica. Apresentação histórica do Coven Speculum Lunae. Edição em português preparada pelo Coven Speculum Lunae, com fonte original disponibilizada pelo The Wica.

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