
ESCRITOS E TESTEMUNHOS GARDNERIANOS
Doreen Valiente — discurso à Pagan Federation (1997)
22 de novembro de 1997 · conferência da Pagan Federation
Apresentação histórica
Em novembro de 1997, Doreen Valiente voltou-se à história da Bruxaria moderna em um discurso pronunciado diante da Pagan Federation, associação em cuja formação havia participado. Sua fala reúne lembranças sobre Gerald Gardner, reflexões sobre pluralismo religioso e considerações a respeito do reconhecimento público dos pagãos britânicos. Entre as passagens mais conhecidas está sua crítica à chamada Lei Tríplice, princípio que recusava como regra universal da Bruxaria. O discurso deve ser lido também como testemunho retrospectivo: décadas depois de sua participação nos primeiros covens, Valiente examinava aspectos da tradição que ajudara a formular e os rumos que ela havia tomado.
Identificação do documento
Autoria: Doreen Valiente
Origem: Discurso proferido na Conferência Nacional da Pagan Federation, 22 de novembro de 1997; publicado em Pagan Dawn em 1998.
Tradução portuguesa integral
Amigos, estou aqui hoje acusada de ter ajudado a fundar uma nova religião.
Como sempre acreditei que a religião organizada é uma maldição para a humanidade, isso me coloca numa situação muito embaraçosa. Sou, portanto, grata à Pagan Federation por me oferecer a oportunidade de me defender dessa acusação tão grave.
Penso, entretanto, que o que aconteceu em 1951, quando Gerald Gardner tornou pública a sobrevivência da bruxaria na Grã-Bretanha, foi simplesmente a manifestação de uma ideia cuja hora havia chegado. Pessoas como o velho Gerald e eu fomos apenas os meios pelos quais ela se manifestou, graças a alguma coisa que se moveu nos planos interiores. Por quê, não sei, mas provavelmente teve algo a ver com a chegada da Era de Aquário.
Ouvi dizer que uma das razões pelas quais a última Lei de Bruxaria foi revogada, em 1951, era que as autoridades haviam sido informadas de que a bruxaria estava morta. Mas logo descobriram que estavam enganadas.
Foi em julho de 1951 que o Witches Mill, em Castletown, na Ilha de Man, abriu como museu de bruxaria, com o nome de Folklore Centre. Parece ter sido originalmente uma ideia do sr. Cecil Williamson, que ainda está entre nós e que, pelo que sei, escreve sua biografia, a qual deverá ser muito interessante. Em reportagens da época, Gerald Gardner é descrito como o “bruxo residente”. Mais tarde, contudo, os dois se desentenderam e se separaram. O sr. Williamson levou sua parte do museu primeiro para Bourton-on-the-Water, nos Cotswolds, e depois para Boscastle, na Cornualha. Fico feliz em saber que, com a aposentadoria do sr. Williamson, o Museu de Boscastle foi adquirido por proprietários simpáticos à causa e continuará funcionando.
Todos nós deveríamos recordar com carinho o antigo Witches Mill, porque ele acendeu um farol para pagãos e bruxos de toda parte. Foi ao ler sobre esse museu que me interessei pela primeira vez pela bruxaria. Vi uma reportagem numa revista chamada Illustrated, datada de 27 de setembro de 1952, e escrevi ao museu pedindo mais informações. Foi assim que, por fim, entrei em contato com Gerald Gardner, conforme contei em meu livro The Rebirth of Witchcraft.
Há um detalhe interessante nessa reportagem, que deixa claro que, ao contrário do que algumas pessoas sugeriram, não fui eu quem introduziu o conceito da Deusa na bruxaria atual. Um dos parágrafos começa dizendo: “Os deuses das bruxas eram os mais antigos de todos — fertilidade e morte. Atualmente, um coven é dirigido por uma mulher devido a uma mudança de ênfase, em direção à Deusa da vida — uma mulher — e para longe do Senhor da Morte”. Isso foi publicado antes mesmo de eu ingressar na Arte dos Sábios.
Gosto dessa expressão, “Arte dos Sábios”. A referência mais antiga que consegui encontrar está nos livros do historiador Hugh Ross Williamson, publicados na década de 1940. Outro termo às vezes utilizado para descrever a bruxaria é “Antiga Religião”. Ele remonta aos trabalhos do folclorista americano Charles Godfrey Leland, dos quais o mais conhecido é Aradia, o Evangelho das Bruxas. O livro apareceu em 1899 e trata das tradições sobreviventes, embora bastante fragmentadas, da bruxaria na Itália, onde eram conhecidas como “La Vecchia Religione”, isto é, “a Antiga Religião”.
Hoje tornou-se costume falar em “Wicca”, embora, na verdade, essa palavra não signifique bruxaria: trata-se do termo anglo-saxão para um bruxo do sexo masculino. Contudo, seu uso tornou-se tão difundido que provavelmente já chegou aos dicionários modernos, de modo que pouco podemos fazer a respeito. Nossos amigos dos Estados Unidos, aliás, acharam-na muito útil para registrar seus grupos como entidades religiosas.
No momento, não temos essa possibilidade aqui. Mas tudo isso pode mudar. No mês passado, surgiu na imprensa e na televisão uma notícia muito importante para todos nós. Parece que, finalmente, estamos prestes a obter algo semelhante a uma Carta de Direitos. Segundo uma reportagem de 24 de outubro: “O governo deu hoje os primeiros passos para incorporar à legislação britânica a proteção dos direitos humanos. Os ministros publicaram um Livro Branco com suas propostas para incorporar ao direito do Reino Unido a Convenção Europeia dos Direitos Humanos. Ao mesmo tempo, apresentaram o Projeto de Lei de Direitos Humanos na Câmara dos Lordes”.
Essa legislação é potencialmente explosiva, pois, na notícia transmitida pela televisão, disseram-nos que incluiria a proibição da discriminação não apenas por cor, sexo e raça — que supostamente já temos protegidos por lei —, mas também por religião. Lembro-me de ter escrito algum tempo atrás ao meu parlamentar sobre isso e de ter recebido a resposta de que a legislação vigente nada dizia sobre discriminação por motivos religiosos. Existe, portanto, uma lacuna significativa na lei atual, e devemos lutar para que ela seja preenchida.
Se essa nova legislação sobre direitos civis for aprovada, a imprensa sensacionalista deixará de poder fazer, por exemplo, o que já fez no passado: descobrir que alguém pratica bruxaria, procurar seus empregadores com essa informação e sugerir que a pessoa seja demitida. Se tentarem isso, ou algo semelhante, sob a nova lei proposta, terão problemas, porque se tratará de discriminação religiosa. Peço, portanto, a esta plateia que acompanhe o assunto com atenção, pois estamos falando de uma Carta de Direitos, como ela já vem sendo chamada. Pessoas como nós, em particular, precisam de uma Carta de Direitos, e devemos acompanhar a situação e fazer o possível para que ela se torne lei.
Lembro-me bem de ir ao Parlamento, na década de 1970, para conversar com um deputado galês que propunha restaurar a antiga Lei de Bruxaria, depois de algumas encenações tolas de nosso velho amigo Alex Sanders na televisão. O parlamentar e sua esposa mostraram-se pessoas muito agradáveis e me ofereceram chá na sala de chá da Câmara dos Comuns. Não sei que tipo de pessoa esperavam encontrar, mas, depois que conversamos e expliquei do que realmente trata a bruxaria atual, fico feliz em dizer que a proibição proposta nunca se concretizou. Lembro-me também de ter dito aos representantes da imprensa que me perguntaram sobre a visita que os bruxos considerariam recorrer à Corte Internacional de Justiça para reivindicar seus direitos civis, caso tal proibição algum dia voltasse a ser lei neste país. Bem, talvez agora isso não seja mais necessário. Talvez possamos reivindicar nossos direitos civis nos tribunais britânicos. É um assunto muito importante para nós e tenho certeza de que a Pagan Federation, em particular, estará atenta.
As pessoas hoje não fazem ideia de como a sociedade era rígida e repressiva nos anos 1950, quando o velho Gerald começou a falar publicamente sobre a bruxaria como uma antiga religião sobrevivente. Naquela época, não se podia entrar numa loja e comprar um baralho de tarô ou um livro de ocultismo sem receber olhares curiosos e, em geral, ouvir que não vendiam esse tipo de coisa. Não havia livros de bolso sobre ocultismo, exceto coisas como o Old Moore’s Almanac e materiais bastante populares, como manuais de leitura das folhas de chá. Livros sérios sobre o assunto só podiam ser obtidos em sebos, por preços muito altos. A mentalidade daquele período ficou perfeitamente ilustrada pela famosa pergunta feita por um advogado ilustre durante o julgamento sobre a publicação de O amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, quando perguntou seriamente ao júri: “Vocês permitiriam que seus empregados lessem este livro?” Havia uma pressuposição arraigada de que as pessoas comuns não tinham direito de ler o que quisessem, ou pensar o que quisessem, muito menos fazer o que quisessem.
Por isso, Witchcraft Today, do velho Gerald, publicado originalmente em 1954, causou um impacto ainda maior. Sua editora, Rider, estava realmente se arriscando ao publicá-lo e, pelo que acredito, só concordou depois que o livro foi cuidadosamente editado por Ross Nichols. Até escritores consagrados como Dion Fortune enfrentaram essa barreira de preconceito. Ela teve de publicar por conta própria sua obra de ficção mais famosa, The Sea Priestess, porque nenhuma editora de sua época aceitava publicá-la, devido às referências à magia lunar e à bruxaria.
Jamais pensei, quando fui tomar chá naquele dia para conhecer o velho Gerald na casa de Dafo, perto de New Forest, que acabaria, mais de quarenta anos depois, falando numa conferência como esta, diante de pagãos e bruxos que assim se declaram. E acreditem: naquela época, uma conferência como esta não teria sido permitida. A polícia a teria encerrado! Os tempos realmente mudaram, e somente a geração mais velha, como eu, percebe o quanto.
Vocês talvez perguntem: como era realmente o velho Gerald Gardner? Era uma figura verdadeiramente singular, de aparência impressionante, com cabelos brancos revoltos e rosto bronzeado, tatuagens nos braços e um grande bracelete de bronze num dos pulsos. Mas era um homem muito gentil, não um fanfarrão como alguns aspirantes a líderes do mundo ocultista, e possuía conhecimentos e experiências de fato incomuns, reunidos em muitos lugares distantes e em encontros com pessoas como Aleister Crowley e outros praticantes efetivos da magia, não apenas gente que falava a respeito dela.
Ele tinha também um senso de humor maravilhosamente malicioso. Lembro-me de uma vez em que quis enviar a um correspondente nos Estados Unidos alguma coisa que havia fabricado. Ele era muito habilidoso na confecção de instrumentos de bruxaria, pois não se podia comprar nada disso naqueles dias, e havia feito uma bela peça para servir de extremidade de um bastão. O problema era que a peça tinha a forma de um falo ereto — bastante tradicional —, mas como descrevê-la no formulário exigido para enviar objetos ao exterior pelo correio? Gerald pensou no assunto e encontrou uma expressão que resolvia a dificuldade. Chamou-a de “ereção religiosa portátil”. Evidentemente, ninguém questionou, e a peça chegou em segurança ao destino.
No início, eu não questionava nada do que Gerald me dizia sobre aquilo que ele afirmava serem os ensinamentos tradicionais da Antiga Religião. Com o tempo, porém, comecei a questionar e a perguntar quanto disso era tradicional e quanto não passava dos preconceitos de Gerald. Ele era, por exemplo, muito contrário a pessoas do mesmo sexo trabalharem juntas, especialmente se fossem homossexuais. Chegou a descrever pessoas homossexuais como “amaldiçoadas pela Deusa”. Não vejo nenhuma boa razão para acreditar nisso. Em todas as épocas da história e em todos os países do mundo existiram pessoas homossexuais, homens e mulheres. Então, por que a Mãe Natureza não saberia o que estava fazendo ao criá-las assim? Não concordo com esse preconceito, dentro ou fora da Arte dos Sábios.
Em 1978, foi publicado nos Estados Unidos um livro muito interessante, Witchcraft and the Gay Counterculture, de Arthur Evans, com o subtítulo “uma visão radical da civilização ocidental e de algumas das pessoas que ela tentou destruir”. Eu gostaria que o velho Gerald o tivesse lido, porque talvez lhe tivesse aberto os olhos, como abriu os meus quando consegui recentemente um exemplar, para todo um campo da bruxaria até então considerado tabu. Como dizem em Arquivo X: “a verdade está lá fora”.
Outro ensinamento de Gerald que passei a questionar é a crença popularmente conhecida como “Lei de Três”. Ela diz que tudo o que se envia por meio da bruxaria volta três vezes, para o bem ou para o mal. Pois bem, eu não acredito nisso! Por que deveríamos acreditar que existe uma lei especial de carma aplicável apenas aos bruxos? Pelo amor da Deusa, será que realmente nos iludimos a ponto de achar que somos tão importantes? E, no entanto, dizem-me que muitas pessoas, especialmente nos Estados Unidos, aceitam isso como artigo de fé. Nunca encontrei tal coisa em nenhum dos antigos livros de magia, e acho que Gerald a inventou.
Não estou tentando destruir a reputação do velho Gerald. Já houve gente suficiente fazendo isso, geralmente pessoas que jamais teriam ouvido falar de bruxaria se não fosse por ele. Mas, com o tempo, também passei a questionar como ele podia fazer seus iniciados jurarem solenemente segredo e, em seguida, conceder uma entrevista a algum jornal que sabia ser especializado nas formas mais grosseiras de publicidade.
Gerald buscava a publicidade, para exasperação da velha Dorothy, sua iniciadora entre os bruxos de New Forest, de Dafo, sua alta sacerdotisa, e, por fim, da minha também. Mas tinha um propósito. Acreditava sinceramente que a Antiga Religião desapareceria deste país se não atraísse sangue novo. Não sei se estava certo nessa crença, embora pessoalmente acredite que a Antiga Religião tenha seus próprios guardiões nos planos interiores. Gerald, contudo, possuía o entusiasmo de um convertido, o que alarmava consideravelmente os praticantes mais antigos.
Lembro-me de que, quando finalmente deixei de trabalhar com Gerald e passei a conviver com Robert Cochrane, que afirmava ser um bruxo hereditário, Robert me disse que os bruxos tradicionais que conhecia estavam indignados com as atividades de Gerald.
Na verdade, segundo me contaram, alguns deles lamentaram a revogação da antiga Lei de Bruxaria, pois diziam que isso abriria as portas a todo tipo de charlatanismo. Queriam que o público continuasse acreditando que a bruxaria estava morta. Desse modo, raciocinavam, poderiam praticar os Antigos Caminhos em paz.
Cada pessoa deve decidir por si mesma se esses antigos praticantes tinham razão. Admito que houve momentos em que quase cheguei a pensar que sim. Mas, a meu ver, nada permanece imóvel. Não podemos viver no passado. Precisamos olhar para o futuro.
Ainda assim, algumas pessoas parecem bastante chocadas ao descobrir que bruxos e pagãos hoje têm páginas na internet, sobretudo nos Estados Unidos. Bem, a internet me parece uma coisa de nome muito mágico: a Teia Mundial. Sabem que uma das Deusas era uma aranha sentada em sua grande teia prateada? Sabem que certos cultos de vodu nos Estados Unidos a chamam de “Rainha Aranha do Espaço”?
Pergunto-me como o falecido Robert Cochrane teria reagido a esses desenvolvimentos modernos. Ele era o magister, ou líder masculino, de um coven com o qual entrei em contato depois que deixei de trabalhar com Gerald Gardner. Afirmava ser um bruxo hereditário e detestava aqueles que chamava de “gardnerianos”. Na verdade, acredito que foi ele quem inventou a palavra “gardneriano”, originalmente como insulto.
Sua maneira de trabalhar era muito diferente da de Gerald Gardner. Em primeiro lugar, rejeitava a ideia de que fosse necessário trabalhar nu. Por isso, seu tipo de coven passou a ser chamado de “coven de mantos”. Seus membros usam mantos, geralmente pretos: primeiro porque preferem trabalhar ao ar livre, mais próximos da natureza; segundo porque argumentam que, se o poder das bruxas não consegue atravessar uma camada de roupa, deve ser um poder realmente muito fraco. O manto preto representa a noite e o segredo, sendo também muito prático como camuflagem noturna, quando seus usuários querem desaparecer entre as sombras sem serem vistos.
O trabalho de Cochrane utilizava muito menos palavras do que o de Gerald Gardner. Grande parte era meditativa e realizada em silêncio. Pessoalmente, penso que isso provavelmente se aproximava mais dos costumes de nossos ancestrais, pois a maioria das pessoas, antigamente, mal sabia ler ou escrever, e os rituais seriam aprendidos de cor e transmitidos oralmente. Cochrane, entretanto, observava as mesmas ocasiões rituais dos seguidores de Gerald: a lua cheia e os quatro grandes sabás de Candlemas, véspera de maio, Lammas e Halloween. Também observava equinócios e solstícios, embora lhes desse menos destaque. Os cânticos rituais sem palavras eram um meio predileto de levantar poder, assim como as danças circulares, muitas vezes ao redor de uma fogueira ou de um símbolo do Deus e da Deusa, como o bastão bifurcado, conhecido como stang, e o caldeirão.
Não tenho dúvidas de que havia muita potência nessa maneira de trabalhar e, pessoalmente, acredito que ela se aproxima mais da bruxaria tradicional do que o método de Gerald. Penso que o coven de Cochrane acabou se desintegrando, como descrevi em The Rebirth of Witchcraft, mais por seus defeitos de personalidade e problemas pessoais do que por qualquer falha em seu sistema mágico. Por isso, fico contente em poder dizer que seus trabalhos continuam sendo realizados, tanto aqui quanto nos Estados Unidos, embora sob grande segredo.
Falamos em métodos de levantar poder, mas o que é, afinal, esse poder das bruxas que se levanta? Parece ser uma espécie de energia limítrofe, da qual diferentes praticantes falaram em muitas épocas e lugares. Por exemplo, os kahunas do Havaí a chamam de mana. Os hindus a chamam de prana. Quando, no século XVIII, os seguidores de Mesmer começaram a redescobrir essa energia, falavam, de maneira um tanto confusa, em “magnetismo animal”. Em nossos dias, Wilhelm Reich nos apresentou o conceito de energia “orgone”, que parece muito semelhante àquilo que o barão von Reichenbach, no início do século XIX, chamava de “od” ou “odyle”, afirmando vê-la fluir das pontas de cristais de quartzo — uma concepção que lembra o “poder dos cristais” de que tanto ouvimos falar entre os praticantes da Nova Era atualmente. Parece evidente que todas essas palavras descrevem uma energia semelhante e que, talvez hoje, quando as mentes estão mais abertas, possamos começar a estudar mais atentamente esse reino das energias sutis e talvez redescobrir o que realmente acontece quando bruxos se reúnem para “erguer o Cone de Poder” — aquilo que, segundo dizem, é representado pelo chapéu pontudo das bruxas.
Mas o que devemos fazer com esse poder depois de levantá-lo? Qual é, afinal, o propósito fundamental da Arte dos Sábios? Dizem-nos que a bruxaria é um culto de fertilidade. Antigamente, provavelmente era exatamente isso. Preocupava-se com a fertilidade da terra ao longo das quatro estações do ano e com o bem-estar do território e de seu povo. Ocupava-se dos aspectos fundamentais da vida: nascimento, morte e renascimento. Era, portanto, basicamente a invocação da própria força da vida, a “Antiga Providência”, como costumava chamá-la a gente do campo na Grã-Bretanha.
Mas a ideia de fertilidade vai muito além da esperança de boas colheitas e do aumento dos rebanhos, e tenho certeza de que sempre foi assim. Existe uma fertilidade espiritual, além da material. As pessoas precisam estar vivas, cheias de vitalidade e criatividade. A vida está aqui para ser desfrutada, e não apenas suportada. Há uma passagem maravilhosa na famosa obra “canalizada” de Aleister Crowley, O Livro da Lei:
“Lembrai-vos todos de que a existência é pura alegria; que todas as tristezas são apenas sombras; passam e terminam; mas há aquilo que permanece.”
Aleister Crowley talvez não tenha sido uma pessoa muito agradável, mas foi um grande poeta.
Os iniciados dos antigos Mistérios pagãos eram ensinados a dizer: “Sou filho da Terra e do Céu Estrelado, e não há parte de mim que não pertença aos Deuses”. Se acreditarmos nisso hoje, veremos que vale não apenas para nós, mas também para as outras pessoas. Deixaremos, por exemplo, de ter discussões tolas entre covens porque fazem as coisas de modo diferente do nosso. Aliás, foi por isso que finalmente me afastei de Robert Cochrane: ele queria declarar uma espécie de Guerra Santa aos seguidores de Gerald Gardner, em nome da bruxaria tradicional. Isso não fazia sentido para mim, pois me parecia, e ainda me parece, que, como bruxos, pagãos ou qualquer outro nome que escolhamos, as coisas que nos unem são mais importantes do que as que nos dividem.
Eu já dizia isso na década de 1960, nos tempos da antiga Witchcraft Research Association, e repito hoje. Desde aqueles dias, porém, acredito que fizemos grandes progressos. Nós nos espalhamos literalmente pelo mundo. Somos um movimento criativo e fértil. Inspiramos a arte, a literatura, a televisão, a música e a pesquisa histórica. Sobrevivemos à calúnia e aos insultos. Sobrevivemos à traição. Parece-me, portanto, que os Poderes que São têm algum propósito para nós nesta Era de Aquário que está nascendo.
Assim seja.
