
ESCRITOS E TESTEMUNHOS GARDNERIANOS
A bruxaria em 1962 — Doreen Valiente
13 de janeiro de 1962 · Psychic News
Apresentação histórica
Publicado em janeiro de 1962, este artigo oferece um retrato da maneira pela qual Doreen Valiente apresentava a Bruxaria ao público leitor da imprensa espiritualista britânica. O texto descreve festividades sazonais, encontros rituais, a reverência à Deusa e ao Deus Cornífero e algumas técnicas mágicas. Também aborda a distinção entre práticas consideradas legítimas e acusações dirigidas aos covens. A fonte interessa pelo registro de uma linguagem pública em formação: Valiente escreve para pessoas que talvez nunca tenham conhecido um praticante, articulando história religiosa, práticas contemporâneas e reivindicações de continuidade com a antiga religião.
Identificação do documento
Proveniência do documento: recorte preservado no scrapbook de Doreen Valiente, disponibilizado pela coleção The Wica.
Autoria: D. Valiente (Doreen Valiente)
Origem: Psychic News, 13 de janeiro de 1962. Recorte de imprensa preservado na coleção The Wica.
Tradução portuguesa integral
Em quatro datas do ano, segundo a tradição, os bruxos se reúnem para celebrar um Grande Sabá. Essas datas são Halloween (31 de outubro), Candlemas (2 de fevereiro), véspera de maio (30 de abril) e Lammas (1º de agosto).
Essas eram as festas populares da antiga religião pagã de culto à natureza e de magia. Muito depois de a Grã-Bretanha tornar-se oficialmente cristã, os bruxos e seus seguidores mantiveram viva a antiga religião.
Na verdade, os bruxos ainda se reúnem nessas datas. Provavelmente há hoje mais covens ativos por todo o país do que houve durante muitos anos.
Isso se deve, em parte, à revogação da última das Leis de Bruxaria em 1951. Além disso, mais pessoas do que nunca estão insatisfeitas com os credos ortodoxos. Procuram, por vezes em lugares inesperados, as respostas para os mistérios da vida.
Covens negros
Elas podem acabar correndo perigo. Existem covens “negros”, assim como covens “brancos”. Os covens “brancos” consideram-se herdeiros de uma tradição antiga. Procuram utilizar os poderes ocultos para o bem.
Os covens “negros”, naturalmente, fazem as mesmas afirmações. Entretanto, muitas vezes são dirigidos por vigaristas e pervertidos. Essas pessoas procuram exercer poder sobre seus seguidores crédulos e satisfazer suas próprias mentes deturpadas.
Qualquer pessoa que se envolva com elas poderá ver-se presa numa rede de obscenidade, degradação e chantagem.
As verdadeiras tradições da bruxaria branca constituem um tema mais agradável e, a meu ver, também mais interessante.
Círculo das fadas
Tomemos, por exemplo, a história do velho pastor de Steyning, em Sussex. Perguntaram-lhe sobre sua prática de bruxaria branca para proteger o rebanho. Ele fazia saudações rituais à lua de dentro de um “círculo das fadas”.
Sua resposta direta ao interlocutor foi: “Só um completo idiota deixaria de fazê-lo!”
O “círculo das fadas” forma um círculo mágico natural. Antigamente, acreditava-se que essas marcas circulares na relva eram produzidas pelos pés de fadas ou bruxas dançando. Na realidade, são causadas por um tipo de fungo que altera a cor da grama. Estima-se que alguns desses círculos nos South Downs tenham centenas de anos. São utilizados ritualmente há gerações.
Lua cheia
Os bruxos acreditam nos poderes da lua. Dizem que ela exerce influência sobre a fertilidade da natureza e também sobre os poderes psíquicos dos seres humanos. Seu encontro mensal, chamado esbá, acontece na lua cheia.
Os poderes da lua são personificados como a Deusa lunar pagã, que eles cultuam e invocam. Ela tem muitos nomes. Hécate, Diana, Aradia e Tanat são alguns deles.
Os bruxos também invocam o Deus Cornífero da fertilidade, semelhante ao grande Deus Pã da Antiguidade. Os antigos homens da Igreja o chamavam de Diabo por causa de seus chifres e cascos fendidos. Para os bruxos, porém, ele é um ser benéfico, que personifica a alegria e a vitalidade da terra.
Lugar sagrado
Além dessas divindades está a “Antiga Providência”, o Pai-Mãe da Vida, fonte original de todas as coisas, da qual procede a hierarquia dos deuses e espíritos em suas muitas ordens.
Às vezes, na noite do Grande Sabá, todos os covens de um distrito se reuniam em determinado lugar escolhido. Muitas vezes era um lugar sagrado pagão, como um antigo círculo de pedras. Ali trocavam informações e realizavam seus rituais.
Em tempos recentes, cinzas de fogueiras misteriosas foram encontradas nos Rollright Stones, nos Cotswolds. As pessoas da região relutam em falar sobre isso, mas há rumores de reuniões de bruxos naquele lugar.
Histórias semelhantes são contadas sobre as solitárias Bodmin Moor, na Cornualha. Ali existe um lugar associado à bruxaria por uma longa tradição. É conhecido secretamente como “Lago da Lua”.
Essas ligações tradicionais às vezes aparecem nos topônimos locais, como Coven Heath, perto de Wolverhampton.
Os bruxos acreditam que a chama natural e a água de nascente emanam “poder”. Seus rituais ao ar livre geralmente envolvem uma pequena fogueira. Quando trabalham em ambientes fechados, utilizam velas acesas e uma tigela com água sobre a qual recitam um encantamento para consagrá-la.
O círculo mágico é traçado para concentrar o poder que os bruxos acreditam levantar. Ele é delineado com uma faca ritual chamada athame, que possui símbolos mágicos no cabo.
Eles acreditam que dançar de mãos dadas dentro desse círculo ajuda a levantar poder: em sentido deosil, ou horário, para a magia branca; e em sentido widdershins, ou anti-horário, para a magia adversa e as maldições.
Ervas secas
Queima-se incenso num turíbulo, sobre brasas de carvão em brasa. Às vezes, os bruxos fazem seu próprio incenso, com resinas aromáticas misturadas a ervas secas colhidas na lua cheia.
Acreditam que a fragrância do incenso atua sobre a mente, ajudando na concentração, e que também atrai espíritos benéficos.
Os bruxos brancos usam feitiços e encantamentos para curar pessoas e animais. Antigamente, havia poucos médicos para os pobres. As pessoas procuravam os bruxos brancos, que as tratavam com ervas.
Hoje, muitas das ervas utilizadas pelos antigos bruxos são processadas em laboratórios modernos para produzir medicamentos valiosos. Durante séculos, aquilo que hoje chamamos de hipnotismo foi conhecido e praticado pelos bruxos.
Os verdadeiros segredos do conhecimento das bruxas foram guardados zelosamente. Às vezes, as tradições eram transmitidas dentro das famílias. Existe uma crença difundida de que um bruxo não pode morrer antes de transmitir seus conhecimentos a um sucessor. Facas rituais e outros objetos mágicos são transmitidos da mesma maneira.
Durante a última guerra, bruxos brancos se reuniram em New Forest, Hampshire, com um propósito muito especial. A Grã-Bretanha estava sob grave ameaça de invasão inimiga. Os bruxos realizaram cerimônias para impedir as tropas de Hitler de atravessar o Canal da Mancha.
Acreditavam que, se se esforçassem o suficiente, conseguiriam introduzir na mente dos líderes alemães a ideia de que uma invasão não poderia ser bem-sucedida. Contava-se entre eles que algo semelhante havia sido feito séculos antes para impedir o desembarque da Armada Espanhola.
Se isso teve algum efeito, quem sabe?
D. VALIENTE
