
ACERVO DIGITAL · FONTES PRIMÁRIAS
Carta de Doreen Valiente a Charles Clark (14 de setembro de 1964)
14 de setembro de 1964
Apresentação histórica
Nesta carta escrita de Brighton, Doreen Valiente comenta a criação de Pentagram pela Witchcraft Research Association, critica o panfleto Witch, de Charles Cardell, relata uma aproximação com Ray Bone e menciona Jack Bracelin. A parte mais significativa para a história da linhagem é sua notícia de uma carta anterior a Olwen e Loic, escrita na tentativa de superar divergências e recuperar a cooperação entre covens. Segundo Valiente, dois meses depois ela ainda não havia recebido resposta. O texto testemunha a perspectiva pessoal da autora em setembro de 1964, não um consenso das comunidades.
Importância para a linhagem Long Island
Esta fonte está integrada ao projeto de documentação das relações entre Gardner, Charles Clark, Monique e Campbell Wilson e a transmissão da tradição aos Buckland. A atribuição de consequências históricas diretas depende de comprovação em correspondências ou testemunhos contemporâneos.
Identificação e fonte original
Autoria: Doreen Valiente
Data: 14 de setembro de 1964
Suporte: transcrição datada em inglês, PDF de uma página
Edição do documento — tradução integral
Apartamento do subsolo
20 Lewis Crescent
Brighton 7
Sussex
14 de setembro de 1964
Caro Charles,
Muito obrigada por sua carta. Fiquei contente em ter notícias suas novamente e, sim, continuo inteiramente ao seu lado. Esperava conhecer Gerard Noel antes de escrever esta carta, mas ainda não consegui; portanto, terei de me basear no que dizem os outros, e ele é, em geral, muito bem-visto.
Suponho que você tenha visto o primeiro número do boletim impresso da Witchcraft Research Association, Pentagram. O velho Cardell está morrendo de inveja dele!
Suponho também que você já saiba que Cardell finalmente revelou sua verdadeira natureza ao publicar, no folheto Witch, um ataque extremamente injurioso contra a Arte e todos os que dela participam. O texto é tão ruim que sei que a revista Prediction se recusou a anunciá-lo, e acredito que Fate tenha feito o mesmo. Escrevi às duas publicações dizendo que aquilo era difamatório, o que talvez tenha contribuído para a recusa.
Há muito tempo eu o adverti sobre Cardell, e agora você pode ver que eu estava dizendo a verdade. Lamento informar que Margaret Bruce, antiga amiga de Gerald, também aparece com um anúncio no livro de Cardell. (É uma mistura de livro e folheto; na verdade, ele teve de imprimi-lo e publicá-lo por conta própria porque, conforme admitiu, ninguém mais quis saber daquilo.)
De certo modo, porém, foi bom que ele tenha publicado o material, porque agora ninguém pode se iludir quanto ao tipo de pessoa que ele é. Além disso, seu ataque virulento a Gerald, apenas três meses depois da morte dele (o livro saiu em maio), causou tamanha repulsa em todas as pessoas que conheço e que o leram que a reação foi contrária a Cardell e favorável à Arte. Por causa desse livro repugnante, a Arte também está mais unida do que antes.
Ray Bone me escreveu uma carta simpática e, desde então, nos encontramos várias vezes. Acho que ela é uma pessoa muito sincera e inteligente, e agora estou convencida de que as histórias que eu ouvira contra ela, segundo as quais teria sido responsável pelos ataques do News of the World à Arte e assim por diante, não têm fundamento algum; foram espalhadas por pessoas interessadas em desacreditá-la. Ela também me transmitiu uma mensagem amistosa de Jack Bracelin, à qual respondi da mesma maneira.
As únicas pessoas que, até agora, se recusaram a participar dessa aproximação e a cerrar fileiras conosco são Olwen e Loic. Enviei-lhes uma longa carta contando como estamos nos unindo diante do ataque de Cardell e perguntando se concordariam em deixar de lado as diferenças passadas e declarar conosco uma unidade de propósitos. Isso foi há cerca de dois meses, mas estou decepcionada porque, até agora, eles não responderam.
Tenho certeza de que você ficará contente ao saber que a ideia que havia proposto de fato se concretizou. Isso não significa que todos precisemos pensar da mesma maneira; na verdade, é a antiga maneira tradicional pela qual a Arte se governava.
Havia uma unidade geral de propósitos, mas cada coven tinha seus próprios oficiais e fazia as coisas à sua maneira — como nas antigas igrejas congregacionais, segundo costumava dizer Gerald.
Sim, li no Sunday Express sobre o episódio nas ruínas de uma igreja. É a esse caso que você se refere? Houve outro em Londres e mais um em Guildford, no Surrey. Parece que os comerciantes da magia negra despertaram novamente.
Nunca ouço falar de Wilson Jones, exceto por uma notícia no jornal dizendo que ele se casou com uma moça chamada Ingrid, austríaca (australiana?).
Em que encrenca R.D.K. (é isso?) se meteu? Não entendi o que você quis dizer.
Espero que sua saúde esteja melhor e que as coisas estejam começando a melhorar para você. Sei que passou por uma fase muito difícil.
Abençoado seja.
Doreen Valiente.
Notas editoriais da transcrição e da tradução
Notas de edição: O The Wica oferece uma transcrição datilográfica da carta, não um fac-símile do manuscrito original. Na versão inglesa foram preservadas grafias como “Geralds”, “Cardells” e “you health”, que podem refletir erros da transcrição. A dúvida “Austrian (Australian?)” e a abreviatura “R.D.K.” também foram preservadas. As opiniões sobre Charles Cardell, Ray Bone e o casal Wilson expressam a perspectiva de Doreen Valiente. A carta menciona uma tentativa de reconciliação dirigida a Olwen e Loic, ainda sem resposta segundo a autora.
Documento relacionado: Reportagem do Daily Mail sobre as disputas entre bruxos britânicos (1º de outubro de 1964) ↗.
Créditos e consulta
Apresentação e notas editoriais: Coven Speculum Lunae. Fac-símile original: coleção histórica The Wica.
