ACERVO DIGITAL · DOCUMENTOS HISTÓRICOS

Bruxas — Divisões nos círculos mágicos (1964)

Daily Mail · 1º de outubro de 1964 · NEWSIGHT

Apresentação histórica

Publicada no Daily Mail em 1º de outubro de 1964, esta reportagem examina as divergências da Bruxaria britânica após a morte de Gerald Gardner, incluindo disputas relativas ao Museu da Bruxaria na Ilha de Man. A matéria apresenta Monique Wilson, Patricia Crowther e Ray Bone, além de Sybil Leek e da recém-criada Witchcraft Research Association, responsável por iniciativas de aproximação entre os grupos. O vocabulário sensacionalista e as alegações sobre história, ritos, sucessão e feitiçaria são testemunhos da representação jornalística daquele momento.

Um documento contemporâneo às disputas

Em carta de 14 de setembro de 1964, endereçada a Charles Clark, Doreen Valiente mencionou a circulação da revista Pentagram, iniciativas de reaproximação entre covens e uma tentativa de diálogo com Monique e Campbell Wilson, então sem resposta. Escrita pouco antes desta reportagem, a correspondência oferece um testemunho independente sobre as tensões retratadas pelo jornal. Ela registra a perspectiva particular de Valiente, que deve ser distinguida das interpretações dos demais envolvidos.

Fonte: Doreen Valiente, carta a Charles Clark, 14 de setembro de 1964, preservada no The Wica. Consultar transcrição da carta ↗.

Abertura da reportagem Witches, do Daily Mail de 1º de outubro de 1964, com fotografias de Ray Bone, Patricia Crowther e Monique Wilson.
Primeira página da reportagem “Witches”, publicada no Daily Mail em 1º de outubro de 1964, com fotografias de Ray Bone, Patricia Crowther e Monique Wilson. Fonte: Doreen Valiente Scrapbooks, The Wica ↗.

Referência e fac-símile

Publicação: Daily Mail, 1º de outubro de 1964.

Autoria: não identificada no recorte preservado.

Título impresso: Witches — Bubble, Bubble, Toil and Trouble Split the Magic Circles in Britain.

Extensão do fac-símile: 2 página(s).

Consultar o PDF original em inglês no The Wica ↗

Acessar a coleção de origem no The Wica ↗

Tradução integral em português

Bruxas — “Bolhas, bolhas, trabalho e problemas dividem os círculos mágicos na Grã-Bretanha”

NEWSIGHT · Daily Mail · quinta-feira, 1º de outubro de 1964

ESTAS três mulheres são altas sacerdotisas do culto secular da bruxaria (anglo-saxão: Wicca, pessoa sábia).

Atualmente, o culto passa por um grande ressurgimento na Grã-Bretanha — e encontra-se dividido por conflitos internos.

Quem está de fora talvez ache a bruxaria divertida. Mas aqueles que a praticam, sempre se referindo a ela como “a Arte”, encaram o assunto com maior seriedade.

Ninguém sabe exatamente quantas pessoas praticam esse culto. Alguns dizem seiscentas, outros, seis mil. Não há como verificar os covens que se reúnem regularmente por todo o país (círculos mágicos são frequentemente traçados com giz nos tapetes das salas de estar).

Está sendo feita uma tentativa de formar uma Witchcraft Research Association [Associação de Pesquisa sobre Bruxaria] para conectar os covens. Acaba de ser lançada uma revista trimestral sobre bruxaria, Pentagram. Um jantar de bruxos será realizado num hotel londrino no sábado.

Por que, então, se o fascínio da bruxaria enfeitiça um número cada vez maior de pessoas, ela estaria dilacerada por tantas divergências?

A chave das disputas está na morte, no começo deste ano, do Dr. Gerald Brousseau Gardner, de cabelos e barba brancos, de oitenta anos, considerado por muitos o principal bruxo da Grã-Bretanha.

Na manhã de 12 de fevereiro, ele estava a bordo do Scottish Prince, próximo à costa norte-africana, viajando de Limassol, no Chipre, para Túnis.

O Dr. Gardner terminou sua torrada com geleia, começou a ler um livro sobre magia e caiu sobre a mesa do café da manhã. Morreu antes que pudessem levá-lo à cabine.

Em seu testamento, deixou a maior parte de um patrimônio de 21.688 libras (incluindo seu Museu da Bruxaria na Ilha de Man e duas casas) para dois bruxos escoceses, a sra. Monique Wilson e seu marido, Campbell, de 41 anos.

Isso provocou a primeira grande divisão.

Os Wilson moravam numa casa pré-fabricada em Perth quando receberam a notícia da morte de Gardner. Três dias depois, a sra. Wilson voou para a ilha e assumiu a casa e o museu do doutor.

O sr. Wilson, que gosta de usar calças de couro preto, descobriu que, com sua nova fortuna, já não precisava trabalhar. Sua esposa, que se autointitula Rainha das Bruxas, passou a funcionar como uma espécie de serviço de aconselhamento para bruxos, respondendo semanalmente a dezenas de cartas de outros praticantes.

O casal considera-se herdeiro de Gardner na Arte.

O sr. Wilson diz que ele e sua esposa ocuparam o lugar do falecido doutor. Outros bruxos discordam veementemente. Um deles declarou na semana passada: “No que nos diz respeito, os Wilson simplesmente não existem.”

O nome da sra. Wilson como bruxa é Lady Olwen. Nascida francesa (em Haiphong, na Indochina), conheceu o marido quando ele servia em Hong Kong depois da guerra. Voltaram à Grã-Bretanha em 1954 e ingressaram na bruxaria britânica por intermédio de Gardner, que fazia visitas frequentes à casa pré-fabricada deles na Nemmo Avenue, em Perth.

Bruxos e aprendizes de bruxaria (cuja formação, gratuita, pode durar de três meses a um ano) viajam de avião à Ilha de Man para participar do coven dos Wilson. As reuniões acontecem na antiga casa de pedra de Gardner, na Malew Street, em Castletown, onde o casal mora (seu número de telefone não consta da lista).

Todos acreditam no princípio da bruxaria: amor perfeito, confiança perfeita e não causar mal a ninguém.

Eles se incomodam quando as pessoas comparam a bruxaria à Magia Negra. Insistem em que a bruxaria procura somente fazer o bem, ao passo que a Magia Negra busca conjurar espíritos malignos.

Os Wilson costumam reunir de três a treze pessoas nuas em seu círculo mágico, traçado no antigo escritório de Gardner, ao qual se chega pelo banheiro. (“Certa vez tivemos dezessete pessoas no círculo. Ficou um pouco apertado, mas conseguimos.”)

Eles acreditam que podem ajudar as pessoas que lhes escrevem.

Quando não há tempo de convocar um coven completo, o sr. e a sra. Wilson entram sozinhos em seu círculo. Às vezes, recebem pedidos de ajuda por telegrama urgente.

Há um mês, souberam de um homem na Califórnia que, segundo se esperava, não sobreviveria. Subiram ao aposento de magia e se concentraram. Era uma segunda-feira. O homem deixou o hospital na quarta-feira.

“Fico arrepiada quando penso nisso”, diz a sra. Wilson. “Fiquei tão contente.”

A sra. Wilson diz ter sido bruxa durante a maior parte da vida. Os dois lados de sua família, acrescenta, possuíam o poder.

Outra disputa atual entre os bruxos britânicos diz respeito àqueles que procuram publicidade. Uma dessas pessoas é a sra. Sybil Leek, de 42 anos, uma bruxa da New Forest.

A sra. Leek está agora em sua segunda turnê de palestras pelos Estados Unidos.

Em cartas enviadas à Inglaterra, afirma estar participando de programas de rádio e televisão sobre bruxaria e ter assinado contrato para uma série de 39 programas televisivos. Conta com um assessor de imprensa e transformou a si mesma numa empresa, Sybil Leek Inc. Nunca viaja sem seu gralho de estimação, Hotfoot Jackson, pousado sobre o ombro.

A sra. Leek desagradou a muitos bruxos que consideram o segredo indispensável à bruxaria. Ela responde: não há nada a esconder na Magia Branca; a Magia Negra é que é perversa.

Outra bruxa acusada de buscar publicidade é a sra. Ray Bone, de Tooting Bec, no sul de Londres. Seu nome na bruxaria é Artemis, que, segundo ela, era uma das deusas-mães.

A sra. Bone descreve a si mesma como uma espécie de responsável pela comunicação entre covens. Acredita que se escrevem muitos disparates sobre bruxaria. Nenhum dos covens que conhece usa imagens de cera e alfinetes, afirma. Seu marido, Bill, que trabalha com chapas metálicas, não participa das cerimônias.

Outra bruxa é a sra. Crowther, de Sheffield. Ela tem aparecido frequentemente em público. Recebeu três mil libras no testamento do Dr. Gardner e escreveu livros sobre bruxaria.

Ao praticar em seu coven, usa apenas uma liga de couro verde e seda azul. A liga é ornamentada com fivelas, uma para cada coven sob sua direção.

Uma fonte constante de discussões no mundo da bruxaria é o Moinho das Bruxas, em Castletown. Gardner o transformou numa atração turística.

O sócio de Gardner na administração da exposição era Bill Worrall, de 43 anos, que esperava herdar o museu quando o doutor morresse.

Alguns bruxos acham que Gardner foi injusto com Worrall ao não lhe deixar o museu integralmente depois de seus nove anos como administrador. Outros tomam o partido dos Wilson.

Worrall (“Sou cristão e não participo da bruxaria”) e sua esposa Louise, também de 43 anos, continuam administrando o museu (ingresso de um xelim para adultos, seis pence para crianças e chapéus de bruxa por dois xelins) e o restaurante (tortas de carne por seis pence e scones caseiros de um a seis pence).

A maior divisão entre os bruxos britânicos decorre das diferenças de perspectiva entre os seguidores de Gardner (os Wilson, os Crowther, a sra. Bone e um bruxo de St. Albans chamado Jack Bracelin) e um grupo mais antigo cujos integrantes se recusam a se identificar publicamente.

Um consultor londrino de relações públicas, de 36 anos, que usa o pseudônimo John Math (extraído de uma lenda galesa, Math vab Mathonwy), afirma manter contato permanente com os integrantes mais antigos.

Ele procura aproximar os dois lados. Fundou a revista de bruxaria Pentagram e organizou o jantar de sábado (ao preço de dois guinéus, incluindo vinho).

Ele despreza os bruxos que assistiram, em fevereiro passado, a uma palestra de um professor norte-americano, Dr. Rossell Hope-Robbins, que procurava desacreditar a bruxaria.

Ele enviou quase quatrocentos exemplares de seu boletim, acompanhados de formulários de assinatura, e até agora recebeu de duzentas a trezentas respostas. Sua proposta de Witchcraft Research Association pretende superar as divisões na bruxaria.

Ele espera obter avanços durante o jantar de sábado.

Algumas autoridades locais estão oferecendo cursos de bruxaria neste outono (City Literary Institute, em Holborn, por 25 xelins; Pendrell Hall College, perto de Wolverhampton, Staffordshire, por 15 xelins).

Quando se tentou novamente proibir a bruxaria, o ministro do Interior, Henry Brooke, lembrou à Câmara dos Comuns que a bruxaria deixara de ser delito criminal em 1735. Não tinha a intenção, declarou, de introduzir nova legislação 228 anos depois.

A bruxaria, seja qual for sua opinião a respeito, permanece entre nós. Na Grã-Bretanha, ela é livre para florescer.

Fotografias e legendas — tradução

A sra. Ray Bone dirige um lar para idosos em Tooting Bec, no sul de Londres. ELA É UMA BRUXA.

A sra. Pat Crowther, de 33 anos, dançarina de Sheffield, acaba de encerrar uma temporada de espetáculos de verão na Ilha de Wight. ELA É UMA BRUXA.

A sra. Monique Wilson, de 38 anos, casada com um ex-tenente de voo da Royal Air Force, mora na Ilha de Man. ELA É UMA BRUXA.

DR. GARDNER — A morte, depois os problemas.

FATOS SOBRE BRUXARIA — quadro original traduzido

A última execução de uma bruxa na Grã-Bretanha ocorreu em 1684 (Alice Molland, enforcada em Exeter). As bruxas eram sempre enforcadas por bruxaria neste país (queimadas por traição ou heresia). O último julgamento por bruxaria registrado na Grã-Bretanha ocorreu em 1711. Várias mulheres foram enviadas à prisão e ao pelourinho. A bruxaria deixou de ser um delito previsto em lei ou de natureza eclesiástica em 1735, quando foi aprovada a Lei da Bruxaria. Nos setenta anos anteriores, bruxas eram enforcadas na Grã-Bretanha à taxa de aproximadamente 23 por ano.

CRENÇAS DOS BRUXOS — quadro original traduzido

Os bruxos acreditam em realizar reuniões de coven nus, dentro de um círculo mágico (“um estranho poder espiritual emana do corpo nu; você poderia ficar incapacitado usando roupas”); em cultuar a Deusa da Fertilidade; na reencarnação; no Livro das Sombras (equivalente à Bíblia na bruxaria); em rituais e símbolos secretos (por exemplo: a Máscara Folhada, representando o Rei dos Bosques, com o rosto decorado por folhas); em espelhos mágicos, convexos e revestidos de tinta preta, em vez de prateados (para conjurar visões mágicas).

Notas editoriais

Nota de edição: A reportagem foi composta em colunas estreitas e inclui dois quadros independentes, “Witch Facts” e “Witch Beliefs”. Nesta edição, os quadros e as legendas fotográficas aparecem após o texto principal. As afirmações sobre perseguições históricas, sucessões e resultados mágicos reproduzem a perspectiva da reportagem de 1964 e devem ser confrontadas com documentação independente. A menção a 1735 como data da descriminalização é uma simplificação jornalística: a lei de 1735 substituiu disposições anteriores e foi revogada em 1951.

Esta fonte integra uma controvérsia entre participantes com interesses e versões conflitantes. As alegações sobre testamento e autoridade ritual devem ser distinguidas de documentos sucessórios e correspondências independentes. A manchete foi confirmada nas duas fotografias do recorte; não há assinatura individual legível no documento.

Créditos e navegação

Fotografias do recorte fornecidas pelo responsável pelo acervo; fac-símile também disponível no The Wica. Transcrição, tradução e notas editoriais preparadas pelo Coven Speculum Lunae.

Voltar a Artigos e reportagens ↗

Ficha correspondente em inglês ↗