O background esotérico de Gerald Gardner e da Wicca Tradicional Britânica
Imagem de abertura: Witch’s Cottage, Bricket Wood. Fotografia de Sunblade1500 (2006) · Fonte · CC BY-SA 3.0.
Quando o assunto é bruxaria e iniciação, as opiniões podem variar bastante, e esse ainda é um tema sensível na comunidade pagã. A iniciação muitas vezes é descrita como um processo de transmissão de conhecimento e impulso espiritual, passado de iniciador para iniciado através de uma linhagem sucessória. Mas, quando falamos de iniciação na Wicca, surgem perguntas que não costumam aparecer em outros sistemas iniciáticos. Acredito que isso vem, em parte, de uma compreensão superficial do significado de iniciação.
Primeiro, é preciso entender que ninguém é simplesmente “iniciado em Wicca”, genericamente (a menos que, como Wicca, você só considere sua primeira manifestação, a Wicca Tradicional Britânica). Só é possível se iniciar em uma tradição de Wicca, ou seja, em uma determinada linhagem que transmite uma maneira de se praticar a Arte. No caso da Wicca Gardneriana, tradição à qual pertenço, todos os iniciados compartilham de uma linhagem iniciática que nos leva de volta até Gerald Gardner. E, ao passo que ninguém precisa de uma iniciação para cultuar deuses pagãos ou fazer magia, é só através de uma iniciação apropriada que alguém pode se tornar gardneriano.
Uma das perguntas que popularmente é feita para invalidar a ideia da iniciação na Wicca Tradicional é: “mas quem iniciou a primeira bruxa?”. Junto com essa pergunta, muitas vezes, encontraremos a crença implícita ou explícita de que “Gardner simplesmente inventou tudo”, ou que a Wicca não passa de “uma colcha de retalhos de outras tradições espirituais”. Essas visões são bastante limitadas e superficiais, e espero conseguir explicar o porquê. A proposta desse artigo é trazer luz a essa discussão em um convite para que ela seja analisada sob novas perspectivas. Para isso, faremos uma jornada pela história de Gerald Gardner, que é conhecido como o “fundador” da Wicca Tradicional Britânica (apesar de o próprio Gardner nunca ter feito essa afirmação!), as origens do coven de New Forest e pelo cenário esotérico da Europa nos séculos XIX e XX. Espero que as próximas páginas possam contribuir para um maior esclarecimento a respeito da nossa história, e também da própria noção esotérica de iniciação.
Witchcult: o “culto das bruxas” e a iniciação em um corpo sacerdotal
“Em 1939, aqui na Grã-Bretanha, eu conheci algumas pessoas (…). Eu percebi que eu havia esbarrado em algo interessante; mas eu já estava na metade da Iniciação quando a palavra ‘Wica’, usada por eles, me atingiu como um raio, e eu soube onde estava, e que a Antiga Religião ainda existia. E então, me vi no Círculo, e tomei os juramentos de segredo usuais, que me impedem de revelar certas coisas.”
Gerald Gardner, O Significado da Bruxaria
Nem todo mundo sabe, mas Gardner não se referia ao que praticava como Wicca. Ele dizia ter sido iniciado no que chamou de witchcult [“culto das bruxas”] ou, simplesmente, witchcraft [bruxaria]. Para ele, “Wica”, com um único c, dizia respeito aos iniciados, e não ao sistema religioso – eles, os Wica, eram “Sacerdotes e Sacerdotisas da Antiga Deusa”, em suas próprias palavras.
Dentro dessa lógica, os iniciados fazem parte de um corpo sacerdotal. A Wicca Tradicional foi descrita por muitos autores como um sistema composto exclusivamente por clero, e não por uma congregação de fiéis: todos os membros iniciados são sacerdotes e sacerdotisas ordenados. Uma das maneiras de compreender o ritual de iniciação é, portanto, como um compromisso de sacerdócio, estabelecido de maneira linear, em que apenas um iniciado pode fazer outro iniciado, transmitindo-lhe uma corrente espiritual própria daquele caminho. Nesse sentido, perguntar “quem iniciou a primeira bruxa?” é tão coerente quanto perguntar “quem ordenou o primeiro padre?”, “quem consagrou o primeiro pai de santo?” ou “quem ordenou o primeiro monge?”
Mas, mesmo ampliada, mantém-se a pergunta. De que maneira essas linhagens sacerdotais foram estabelecidas? Quem as começou? Diferentes linhas cristãs atribuem sua origem aos apóstolos, que estiveram em contato com Jesus; para os católicos, Pedro, tradicionalmente reconhecido como o primeiro papa, ocupa um lugar especial na compreensão da continuidade da autoridade episcopal, expressa na sucessão apostólica.
De maneira parecida, no budismo, é ao Buda histórico, Shakyamuni (Sidarta Gautama), que se atribui a origem da vida monástica segundo seus ensinamentos. Ele recebeu discípulos que abandonaram a vida cotidiana para se tornarem monges, enquanto outros seguidores, homens e mulheres, permaneceram leigos. A ordenação insere alguém na comunidade monástica, assim como a iniciação de primeiro grau, na Wicca Tradicional, insere o novo iniciado em um coven. Após a morte do Buda, seus discípulos continuaram recebendo novos membros e transmitindo as regras de ordenação. A autoridade dessa transmissão remonta, assim, ao próprio Buda.
Como vimos, em muitos sistemas de sucessão sacerdotal, as ordenações são feitas entre pares: um membro do próprio corpo sacerdotal ordena outro. Na origem dessas práticas, frequentemente encontramos uma figura mítica, ou histórico-mítica, responsável por “fazer uma ponte” entre este mundo e a realidade divina: uma deidade nascida como ser humano, um profeta, um ser humano que atinge a iluminação. É dessa figura, imbuída de uma aura sagrada, que surge o “primeiro impulso” de uma corrente iniciática que nos conduz a um transcendente. Encontramos um paralelo em Aradia: o Evangelho das Bruxas, quando Aradia, filha de Diana e Lúcifer, é enviada à Terra para ensinar a bruxaria e restabelecer o culto de Diana. Também nos mitos da Wicca Tradicional podemos encontrar ecos desse princípio.
A palavra “iniciação”, em um contexto religioso, também está associada à experiência dos mistérios, como os de Elêusis, os órficos e os isíacos. Aqui, a iniciação se relaciona à noção de “experiência direta” transmitida através do ritual. O conhecimento religioso não se esgota na palavra falada ou escrita: é suscitado no neófito por rituais que lhe permitem o contato com o sagrado. Na Wicca, os iniciados são também sacerdotes e sacerdotisas, agentes desses ritos de mistério. Talvez “sacerdócio” seja melhor entendido aqui em seu sentido prático: a ação ordenada e reiterada de um corpo sacerdotal que executa seus ritos com maestria. Vale lembrar o latim relegere, associado por Cícero à ideia de “retomar” ou “examinar cuidadosamente”.
Existiu um coven de New Forest antes de Gardner?
Para muita gente, Gardner simplesmente sentou-se em sua escrivaninha, organizou materiais rituais de fontes diferentes e – boom – inventou uma religião da noite para o dia. Mas ele nunca se disse um “fundador”; sempre reivindicou para si o papel de “esclarecedor”, ou, como poderíamos chamá-lo, divulgador da Arte. Segundo seu relato, encontrou um coven de bruxas no qual foi iniciado em 1939 – o coven de New Forest.
Existem muitos problemas com a ideia de que Gardner simplesmente inventou a Wicca. Dizer que “só copiou tudo” pressupõe que uma religião legítima precise apresentar um conteúdo inteiramente inédito. Se esse fosse o caso, teríamos que dizer o mesmo do cristianismo, do budismo e do islã, entre tantas outras religiões que emergiram de expressões espirituais anteriores, diferenciando-se delas sem deixar de carregar parte de suas heranças.
É comum lembrar que Gardner se valeu de materiais de Crowley para compor seus rituais. Nessa comparação, o texto de Crowley por vezes é tratado como original, inédito ou revelado; mas material revelado não está necessariamente livre de influências anteriores. As pesquisas também mostram fontes e empréstimos nos próprios escritos de Crowley. Isso de alguma maneira diminui seu legado? É claro que não. Apenas nos ensina que nada surge de um “vazio primordial”.
Mas voltemos ao ponto: o coven de New Forest. Na narrativa de Gardner, ele se deparou com ocultistas que utilizavam conhecimentos esotéricos em circulação na época para compor rituais semelhantes ao “culto das bruxas” descrito por Margaret Murray e outros autores, que viam na bruxaria europeia a sobrevivência de práticas pagãs antigas. O coven de New Forest, se existiu, surgiu provavelmente nas décadas de 1920 ou 1930.
Esses rituais, apesar de “novos”, bebiam de fontes mais antigas para se estruturar, tanto no que diz respeito à sua poética ou ritualística, quanto da própria noção acerca do imaginário sobre a bruxaria herética propagado pela Igreja. Como Ronald Hutton demonstra em seu clássico livro The Triumph of the Moon, a Wicca Gardneriana surge como um produto de diversos impulsos intelectuais e sociais vindos de diferentes direções: o movimento literário e poético, as pesquisas arqueológicas, históricas e antropológicas da época, bem como uma série de outros fatores. Dizer que “Gardner simplesmente inventou tudo”, ou que ele foi o único responsável por produzir esse fenômeno religioso, é ignorar o que a própria história já nos mostrou. Hoje, existem muitas obras de qualidade que nos ajudam a compreender melhor nossas nebulosas origens.
Philip Heselton é um pesquisador que tem se dedicado a investigar as personalidades envolvidas com o surgimento da Wicca Gardneriana. Ele é autor de importantes obras, como Wiccan Roots, Gerald Gardner and the Cauldron of Inspiration, Witchfather volumes I e II, Doreen Valiente: Witch, dentre outros, e compartilhou seus achados sobre o coven de New Forest e as pessoas associadas a esse grupo na obra In Search of the New Forest coven, publicada em 2020. Na obra, Philip faz uma minuciosa pesquisa a respeito da vida dessas pessoas e suas ligações com Gerald e o cenário ocultista da época. Entre as pessoas investigadas aparece ainda Rosamund Sabine, vinculada à Order of the Morgenrothe, uma vertente da tradição ritual derivada da Golden Dawn.
Tudo isso nos leva à ideia de que a Wicca, apesar de uma nova religião, bebeu não apenas de fontes espirituais mais antigas, mas emergiu do meio ocultista da época, congregando uma série de impulsos iniciáticos das tradições mágicas ocidentais, escolas de mistério e sociedades ocultas, que se amalgamaram em belo cálice de prata para dar origem à religião da Deusa da Lua e da Fertilidade e do Deus Caçador da Morte e Renascimento. A partir de então, esse mesmo impulso iniciático mais antigo passou a ser transmitido com um novo nome e método, mas suas raízes espirituais lhe antecedem; com o tempo, o sistema ganhou identidade própria e suas particularidades específicas. Por isso, perguntar simplesmente “quem iniciou a primeira bruxa” é desconsiderar a complexa origem, não apenas textual, mas também esotérica, presente na Wicca Tradicional.
A Sociedade de Crotona e as bruxas de New Forest
É em 1936 que Gardner se aposenta e retorna à Inglaterra. Em 1938, fixa moradia em Highcliffe, nas proximidades de New Forest. Na região, conhece o teatro rosacruz ligado à Rosicrucian Order Crotona Fellowship, assiste à peça Pitágoras e começa a frequentar as reuniões do grupo. A Sociedade de Crotona havia sido fundada por George Alexander Sullivan e reunia rosacrucianismo, teosofia e práticas inspiradas na maçonaria. Entre os participantes estava Mabel Besant-Scott, filha de Annie Besant e ligada à co-maçonaria, que admitia homens e mulheres e utilizava cerimônias de graus. Edith Woodford-Grimes também circulava nesse ambiente. Assim, o grupo aproximava pessoas familiarizadas com diferentes formas de transmissão iniciática.
“A filosofia da Irmandade de Crotona, que seguia os bem-estabelecidos ensinamentos rosacrucianos, talvez possa ser resumida como a crença de que não somos apenas um corpo físico; de que há uma parte de nós que sobrevive à morte física e renasce; que nossas muitas vidas são períodos de aprendizado por experiência; e que todos nós somos potencialmente capazes de grandes feitos, possuindo faculdades esotéricas que podem ser usadas e desenvolvidas para auxiliar o progresso espiritual dos outros e de nós mesmos.”
Philip Heselton, In Search of the New Forest Coven
Segundo o relato de Gardner, ele encontrou ali um grupo diversificado de pessoas, entre as quais se destacava um pequeno núcleo mais reservado. Aproximou-se desses participantes, até que lhe revelaram ser um coven de bruxos e reconheceram que Gerald era um deles. Ele foi, então, iniciado, como conta na passagem anterior.
A iniciação de Gerald em 1939, conforme seus próprios relatos, aconteceu “na casa de Old Dorothy” – que muitos pensam ter sido sua iniciadora. “Old Dorothy” parece ser uma referência a Dorothy Clutterbuck (19 de janeiro de 1880 – 12 de janeiro de 1951). Muitos diziam que Old Dorothy havia sido apenas uma invenção de Gardner, mas Doreen Valiente provou a existência de Dorothy Clutterbuck, divulgando seu atestado de óbito. As relações dessa figura com a Wicca são, até hoje, incertas, e as evidências parecem inconclusivas. Entretanto, é possível que, mesmo que Dorothy não tenha sido uma bruxa, uma de suas propriedades possa ter sido usada para a iniciação de Gerald.
Entretanto, outros atribuirão a iniciação de Gardner à figura de outra mulher: Edith Woodford-Grimes, a quem Gardner carinhosamente chamava de ‘Dafo’. Eles se conheceram na Sociedade de Crotona e, muito provavelmente, ela fazia parte do seleto grupo de pessoas por quem Gardner se afeiçoara. Na obra King of the Witches, publicada em 1969 por June Johns, se lê que “Gardner foi iniciado no primeiro grau do culto por uma bruxa chamada ‘Daffo’ em New Forest”. Sabemos, pela pesquisa de Philip, que ela tinha livros de bruxaria em sua casa, alguns dos quais haviam sido herdados de sua família. Edith e Gerald desenvolveram uma relação de muita proximidade e afeto. Ela era uma mulher casada, e seu marido não parecia compartilhar de seus interesses pelo oculto. Por isso, para aqueles que acreditam ter sido ela a verdadeira iniciadora de Gardner, o que ele fez ao jogar toda a atenção em Dorothy foi proteger a verdadeira identidade de Edith como bruxa.
As primeiras pessoas iniciadas por Gerald foram Barbara Vickers e seu marido, Gilbert. Barbara teria sido a primeira, iniciando Gilbert em seguida, entre o outono de 1949 e o de 1950. Seu nome na Arte era Morven, o mesmo da protagonista do romance de Gardner High Magic’s Aid, publicado em 1949.
A iniciação de Doreen Valiente aconteceu na véspera do solstício de verão de 1953. Mais tarde, ela conheceria os outros membros do coven de Gerald, que reunia em torno de oito a dez pessoas. Talvez um de seus grandes diferenciais em relação a muitas das outras Iniciadas de Gardner seja que ela já trazia consigo uma bagagem mágica considerável. Doreen não era uma iniciante ao entrar em contato com Gardner e sua bruxaria; ela era uma ocultista experiente, com antecedentes na teosofia e na magia cerimonial e familiaridade com os rituais e manuscritos da Golden Dawn, por exemplo, o que permitia a ela contribuir e discutir sobre bruxaria com mais propriedade. Seu nome na Arte era Ameth.

Em 1954, Gardner publicou A Bruxaria Hoje, seu primeiro livro não ficcional dedicado explicitamente à bruxaria. Antes, havia lançado os romances A Goddess Arrives (1939) e High Magic’s Aid (1949), este último também marcado pela magia e pela bruxaria. Em 1959, publicaria O Significado da Bruxaria.
“A irmandade dos Wica”: iniciação e as fraternidades ocultas
Além desse contexto religioso, há outro elemento importante para compreendermos as bases esotéricas da iniciação na Wicca Tradicional: o meio ocultista europeu em que ela se desenvolveu.
Nos círculos esotéricos onde o trabalho ritual é feito em grupo, a iniciação significa também a admissão de um novo membro. Nas sociedades secretas ou discretas, um integrante é apresentado ao grupo, passa a ser reconhecido e recebe conhecimentos aos quais se compromete por juramento de segredo, sem compartilhá-los com não iniciados – os “trouxas”, na linguagem de Hogwarts, ou cowans, num termo típico da Wicca.
De um ponto de vista esotérico, a iniciação possui outro fator importante: as pessoas que compõem um grupo ocultista representam apenas sua parte visível. Há, no ocultismo ocidental, a noção de grupos contatados, ligados a uma egrégora, que possuem também uma contraparte nos planos sutis. O novo iniciado é apresentado a ela para que seja reconhecido como “parte da tribo”. Na Wicca Tradicional, ele é inserido na mente-grupo e apresentado aos deuses e àquilo que Gardner chamou de Mortos Poderosos:
“A pessoa deveria ser formalmente apresentada ao grupo, embora em nome seja apresentada aos Poderosos – os espíritos dos mortos membros do culto que não reencarnaram e que se supõe estar presentes.”
Gerald Gardner, A Bruxaria Hoje
Nos séculos XIX e XX, ordens, lojas e sociedades dedicadas às artes esotéricas multiplicaram-se pela Europa. Era comum que ocultistas circulassem entre diferentes núcleos e sistemas iniciáticos, produzindo uma intensa polinização cruzada. A maçonaria oferecia modelos de graus e juramentos; o rosacrucianismo e a Golden Dawn difundiam repertórios cerimoniais, enquanto a co-maçonaria e a teosofia aproximavam outras pessoas desses circuitos. Em níveis externos, intercambiavam-se textos, rituais e técnicas; em níveis internos, impulsos iniciáticos e experiências mágicas.
É desse contexto que a Wicca surge, com a herança e a bagagem que encontramos em outros grupos esotéricos de seu tempo. São todos semelhantemente legítimos, pois emergem de um mesmo caldeirão. O diferencial da Wicca é que, desde suas origens, ela também se afirmou como uma religião.
As iniciações de Gerald
O contato de Gardner com o universo do místico, mágico e religioso se deu bem cedo. Precocemente diagnosticado com asma (a “doença dos ocultistas”), seus primeiros anos de vida foram marcados pela ausência de um processo de educação formal – incluindo a educação da religiosidade convencional da época, ou seja, a cristã. Ainda quando era apenas um adolescente, leu There Is No Death, uma obra sobre o espiritualismo – um movimento que deixaria traços muito importantes no pensamento e nas obras de Gardner sobre bruxaria. Desde muito cedo, Gerald foi um grande entusiasta da ideia de reencarnação, que também se dedicou a estudar sob o viés budista – mas, alguns dirão, a maneira como ele próprio aborda o assunto parece permeada muito mais pelo viés teosófico de Blavatsky.
Em 1900, foi morar no Ceilão (atual Sri Lanka). Em 1910, tornou-se maçom, filiando-se à Sphinx Lodge nº 107, em Colombo. Recebeu os graus em três reuniões:
Aprendiz: 23 de maio de 1910.
Companheiro: 20 de junho de 1910.
Mestre maçom: 27 de junho de 1910.
Em 1911, foi viver em Bornéu, onde presenciou cerimônias espirituais entre povos dayak, termo que abrange diferentes grupos indígenas da ilha. Segundo seus relatos, nesses rituais havia contato com espíritos através de “transe mediúnico”. De volta à Inglaterra, em 1927, conheceu reuniões espiritualistas e fenômenos como a escrita automática, cuja caligrafia, numa ocasião, lhe lembrou a de sua mãe falecida. Sua biografia Gerald Gardner: Witch atribui a essas experiências importância para suas crenças sobre reencarnação.
Em 1946, Gardner passou a integrar a Ancient Druid Order. A religiosidade celta lhe despertava interesse, como se percebe em seus escritos sobre bruxaria. Entre seus companheiros na ordem estava Ross Nichols, que mais tarde fundaria a OBOD (Order of Bards, Ovates & Druids). Gardner também circulou pelo cristianismo heterodoxo dos episcopi vagantes [bispos errantes], cujas linhas de sucessão apostólica oferecem outro paralelo interessante com a ideia de linhagem iniciática.
Em 29 de agosto de 1946, Gardner foi ordenado sacerdote da Antiga Igreja Britânica, conforme diploma assinado por Dorian, bispo de Caerleon, preservado em sua biblioteca pessoal. O movimento procurava recuperar uma religiosidade cristo-druídica, ou um “cristianismo neo-celta”, associando tradições cristãs e referências à antiga religiosidade das Ilhas Britânicas.

A associação com a bruxaria e o oculto não parece ter representado um conflito para Gardner, uma vez que esse ambiente cristão heterodoxo também era permeado pelo esoterismo. Não sabemos suas motivações exatas para a filiação; foram sugeridas razões sociais, bem como seu interesse pelo celtismo e pelas formas alternativas de sacerdócio. Há relatos de uma nova ordenação, sub conditione, realizada por Colin Mackenzie Chamberlain durante uma visita de Gerald ao Chipre, em 1949. É interessante notar, mais uma vez, a proximidade entre a sucessão apostólica e a noção de linhagem iniciática tão cara a Gardner.
Diz-se que Gerald tinha especial afeição pela deusa Afrodite. Acreditava ter vivido no Chipre em uma existência anterior e chegou a comprar um terreno na ilha, talvez para construir um templo, o que não se concretizou. Mais tarde, cedeu suas terras a John Sebastian Marlow Ward, também ligado à Antiga Igreja Britânica, em troca da Witch’s Cottage. Seu primeiro romance, A Goddess Arrives, ambienta-se no Chipre pré-cristão e faz referência direta a Afrodite e a outros elementos pagãos.
Também é conhecida a associação de Gardner a Aleister Crowley e à Ordo Templi Orientis (O.T.O.), ordem surgida no início do século XX de correntes da maçonaria esotérica e do ocultismo europeu, com influências rosacruzes e referências orientais, como o tantra. Crowley desenvolveu parte de seus rituais, incluindo a Missa Gnóstica. Após a morte de Theodor Reuss, em 1923, passou a reivindicar a liderança mais ampla da ordem e permaneceu uma de suas principais referências até morrer, em 1947.

Gerald foi apresentado a Crowley por Arnold Crowther, que mais tarde se casaria com Patricia Crowther e fundaria com ela o coven de Sheffield. O encontro aconteceu em Beltane, 1º de maio de 1947, ano em que Crowley morreu, em 1º de dezembro. Eles se encontraram outras vezes nas semanas seguintes. A entrada de Gardner na O.T.O. e sua progressão pelos graus foram aceleradas, tendo sua formação maçônica importância nesse processo. Crowley lhe concedeu uma carta que o autorizava a constituir um núcleo da O.T.O. no grau de Minerval, na qual se lê:
Do what thou wilt shall be the law
We Baphomet X° Ordo Templi Orientis Sovereign Grand Master General of all English Speaking Countries of the Earth do hereby Authorise our beloved son Scire, (Dr. G.B. Gardner,) Prince of Jerusalem, to constitute a camp of the Ordo Templi Orientis in the degree of Minerval
Love is the law, Love under Will
Witness my hand and seal,
Baphomet X°
Aleister Crowley, carta de autorização a Gerald Gardner (1947)
Tradução para o português:
Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei.
Nós, Baphomet X°, Soberano Grão-Mestre Geral da Ordo Templi Orientis para todos os países de língua inglesa da Terra, por meio deste autorizamos nosso amado filho Scire (Dr. G. B. Gardner), Príncipe de Jerusalém, a constituir um acampamento da Ordo Templi Orientis no grau de Minerval.
Amor é a lei, amor sob vontade.
Em testemunho, minha assinatura e meu selo.
Baphomet X°
É também por essa via que Gardner tem acesso a materiais de Crowley – por caminhos que me parecem legítimos. Gerald afirmava que os rituais recebidos do coven de New Forest eram fragmentados e, por isso, recorreu à poesia de Crowley para complementar seu Livro das Sombras, decisão que não agradou a todos.
Conclusão
Quem iniciou a primeira bruxa? Não sabemos quem foi “a primeira bruxa” na árvore genealógica do que viria a ser a Wicca Gardneriana. Sabemos que, através dos esforços de muitas pessoas, especialmente Gerald Gardner, aquilo que conhecemos como bruxaria moderna neopagã ganhou forma. Certamente, ele não tinha como prever que ajudava a dar início a um dos movimentos religiosos mais marcantes do século XX. Sua influência pode ser reconhecida em inúmeros caminhos neopagãos, mesmo entre aqueles que seguiram rumos muito diferentes dos seus.
Nós, que traçamos nossa linhagem iniciática até ele, o fazemos com honra e reverência, celebrando os elos que nos conectam a esse grande iniciador. E muitas pessoas que se chamam bruxas ao redor do mundo, mesmo sem os laços iniciáticos que façam delas “bruxas gardnerianas”, carregam um pouco de Gerald em sua Arte, em seus altares, na admiração pela natureza e no amor pelos deuses antigos. Mesmo aquelas cujas práticas são muito diferentes das propostas por ele. De muitas maneiras, temos, em nossas almas, o toque das mãos dele.
Obrigado, Gerald, por nos presentear com uma nova Antiga Religião.
Seja para sempre lembrado, a cada vela que se acender sobre o altar de uma bruxa. Blessed be!
Bibliografia básica
- BRACELIN, Jack L. Gerald Gardner: Witch. London: Octagon Press, 1960.
- GARDNER, Gerald B. Witchcraft Today. London: Rider & Company, 1954.
- GARDNER, Gerald B. The Meaning of Witchcraft. London: Aquarian Press, 1959.
- HESELTON, Philip. Witchfather: A Life of Gerald Gardner. Volume 1: Into the Witch Cult. Loughborough: Thoth Publications, 2012.
- HESELTON, Philip. Witchfather: A Life of Gerald Gardner. Volume 2: From Witch Cult to Wicca. Loughborough: Thoth Publications, 2012.
- HESELTON, Philip. In Search of the New Forest Coven. Fenix Flames Publishing, 2020.
- HUTTON, Ronald. The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft. Oxford: Oxford University Press, 1999.
- JOHNS, June. King of the Witches: The World of Alex Sanders. London: Peter Davies, 1969.
- LELAND, Charles G. Aradia, or the Gospel of the Witches. London: David Nutt, 1899.
- VALIENTE, Doreen. The Rebirth of Witchcraft. London: Robert Hale, 1989.


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