MANUAL PARA BUSCADORES · CAPÍTULO 08
Capítulo 8 — Ingressar, esperar ou seguir outro caminho
FLÁVIO LOPES · SPECULUM LUNAE
Revisitar o começo
Volte, por um instante, às perguntas do primeiro capítulo. O que você esperava encontrar quando começou esta busca? Talvez desejasse conhecer uma tradição específica, aproximar-se de determinadas práticas ou encontrar pessoas com quem compartilhar seu culto aos Deuses. Agora, depois de leituras, contatos e encontros, alguma coisa pode ter mudado. Você conhece melhor o sistema que o atrai, compreende um pouco mais a vida de uma comunidade e talvez tenha descoberto necessidades que antes não sabia nomear.
O aprendizado produzido pela busca não depende de uma Iniciação. Reconhecer que precisa estudar mais, procurar outras pessoas ou esperar um momento mais adequado também pode ser um resultado importante. Há ocasiões em que a oportunidade parece muito próxima, e exatamente por isso nos sentimos pressionados a decidir. Procure não confundir a alegria de receber um convite com a obrigação de aceitá-lo.
Quatro perguntas para uma mesma escolha
A decisão de ingressar num coven envolve ao menos quatro dimensões. A primeira é a afinidade com o sistema religioso e iniciático: seus rituais, suas ideias, suas práticas e o tipo de experiência que você deseja desenvolver. A segunda é a afinidade com o coven concreto, sua cultura, seus integrantes e seu modo de convivência. A terceira diz respeito à relação com os possíveis líderes, à confiança que inspiram e à maneira como exercem sua responsabilidade de ensinar. A quarta envolve sua própria vida, com as condições materiais, emocionais e práticas necessárias para manter o compromisso. Talvez você encontre uma Tradição com a qual se identifica profundamente, mas perceba que determinado coven não lhe oferece um ambiente compatível. Ou também pode gostar das pessoas e ainda assim não reconhecer naquela formação aquilo que deseja estudar. Ainda, pode admirar os líderes e descobrir que sua rotina não comporta os encontros. Nenhuma dessas situações exige que você desqualifique o grupo ou a si mesmo.
Antes de dar uma resposta, procure reconhecer quais dúvidas ainda influenciam sua decisão. Algumas dizem respeito a conhecimentos que só poderão ser alcançados através da experiência iniciática; outras envolvem condições concretas de participação que você precisa compreender antecipadamente. Talvez seja possível aceitar que certos aspectos do caminho permaneçam desconhecidos, mas não seria prudente assumir responsabilidades cujas consequências ainda não foram suficientemente esclarecidas. Se uma pergunta importante continua sem resposta, o próximo passo poderá ser simplesmente retomar a conversa com seus possíveis iniciadores.
Quando a decisão é prosseguir
Prosseguir pode significar coisas diferentes. Talvez você deseje participar de outra conversa, conhecer outros integrantes ou comparecer a uma atividade aberta. Também pode acontecer de receber um convite para iniciar um período de estudos, integrar um círculo externo ou assumir uma etapa formal de formação. Cada uma dessas possibilidades envolve expectativas e responsabilidades particulares, e é importante compreender exatamente qual oportunidade está sendo oferecida. Antes de aceitar um compromisso, procure esclarecer o que acontecerá em seguida. Quais serão suas responsabilidades? Quem acompanhará sua formação? Existem condições conhecidas para dar continuidade ao percurso? Em que momentos poderá reconsiderar sua participação? Não é necessário esperar por uma certeza absoluta sobre tudo aquilo que viverá, mas convém conhecer suficientemente as condições da decisão que está tomando.
Lembre-se também de que essa escolha não depende exclusivamente de você. O coven possui o direito e a responsabilidade de avaliar se deseja receber alguém e se possui condições para oferecer a formação pretendida. Uma resposta negativa poderá resultar de incompatibilidades, limites de disponibilidade ou circunstâncias internas que não dizem respeito necessariamente ao valor pessoal ou à vocação religiosa do buscador. Uma explicação respeitosa poderá ajudá-lo a compreender a decisão, embora nem sempre seja possível conhecer todos os motivos envolvidos. Assim como você deve poder escolher livremente seu caminho, a comunidade também precisa conservar a liberdade de decidir sobre sua própria composição.
Quando é melhor esperar
Talvez você tenha encontrado uma comunidade com a qual se identifica, mas reconheça que ainda não possui tempo, recursos ou condições pessoais para assumir os compromissos necessários. Também pode acontecer de desejar conhecer melhor seus iniciadores ou esclarecer alguma questão antes de prosseguir. Nessas circunstâncias, esperar pode ser uma decisão responsável. Procure compreender o que precisaria mudar para que essa possibilidade se tornasse adequada: uma reorganização de sua rotina, maior estabilidade financeira, novas conversas ou simplesmente mais tempo para refletir. Assim, a espera não precisa representar o abandono do caminho, mas o reconhecimento das condições em que você deseja percorrê-lo.
Também pode ocorrer que você procure uma comunidade e descubra que a prática solitária atende melhor às suas necessidades atuais. A experiência com a Arte também me ensinou a reconhecer que pessoas diferentes encontram profundidade em caminhos distintos. O compromisso que alguém assume com os Deuses e com sua prática merece ser reconhecido em suas próprias condições. Eu continuo atribuindo grande valor à experiência iniciática, mas aprendi que nenhum título dispensa a responsabilidade de viver aquilo que professamos.
Quando você decide não continuar
Se a aproximação não correspondeu às suas expectativas, é possível encerrá-la com simplicidade. Nos primeiros contatos, uma breve mensagem de agradecimento e despedida costuma bastar. Se houve encontros, tarefas combinadas ou materiais emprestados, convém cuidar das responsabilidades pendentes. Se a formação já começou, procure compreender os procedimentos de afastamento que foram apresentados no início.
Você não precisa inventar dificuldades financeiras ou problemas pessoais para justificar sua decisão. Pode dizer que, depois de refletir, prefere não dar continuidade à aproximação. Caso tenha desenvolvido uma relação de confiança e deseje explicar suas razões, faça-o na medida em que lhe parecer adequado. Ser franco não exige produzir uma crítica extensa ao trabalho de pessoas que simplesmente seguem outro caminho. Talvez o mais difícil seja a sensação de decepcionar alguém que demonstrou interesse por você. A gratidão pelo tempo dedicado pode ser sincera, e ainda assim não existir vontade de construir uma relação iniciática. Uma orientação ou acolhimento recebido não se transforma numa dívida a ser paga com a própria permanência. Pergunte-se se deseja continuar porque reconhece valor na experiência ou porque teme desagradar seus interlocutores.
Naturalmente, uma despedida respeitosa só pode ser esperada quando existem condições para realizá-la com segurança. Em situações de intimidação, ameaça ou coerção, você não precisa enfrentar reuniões hostis ou participar de cerimônias de desligamento para demonstrar consideração pela comunidade. Preserve sua segurança e procure apoio confiável quando necessário.
Uma escolha que seja propriamente sua
Talvez sua decisão seja diferente daquela que imaginava quando começou a procurar um coven. Pode ser que tenha encontrado uma comunidade com a qual deseja compartilhar muitos anos de sua vida; talvez reconheça que ainda precisa de tempo ou que será melhor seguir outro caminho. Qualquer que seja a resposta, espero que ela resulte do conhecimento que você construiu sobre a Tradição, as pessoas que a praticam e suas próprias condições de participação.
A capacidade de reconhecer os Mistérios também exige atenção ao mundo que habitamos: ao tempo, aos corpos, às necessidades, às relações e à liberdade das pessoas. Se a Arte nos convida a aprender a ver, a busca por uma comunidade é uma oportunidade de exercitar esse olhar.
A última ferramenta deste manual ajudará você a reunir suas reflexões e identificar o próximo passo que deseja dar. Retorne também ao exercício do primeiro capítulo. Talvez seja interessante descobrir quais expectativas permaneceram, quais se transformaram e o que você aprendeu sobre si mesmo durante esse percurso.
FERRAMENTA PRÁTICA · EXERCÍCIO 08
Ferramenta 08 — Minha bússola de decisão
Quando utilizar: depois de conhecer uma comunidade o suficiente para considerar os próximos passos de sua aproximação. Antes de começar, retome também a Ferramenta 01 e compare suas primeiras expectativas com aquilo que aprendeu durante a busca. Esta ferramenta ajudará você a reunir as informações que considera importantes e reconhecer o que deseja fazer neste momento.
1. Revendo os quatro níveis de compatibilidade
Sistema ou Tradição
• O que conheço e admiro nesse caminho?
• Existe alguma característica de suas práticas ou de sua proposta religiosa com a qual não me identifico?
O coven ou comunidade
• O que conheci sobre sua vida comunitária, sua organização e sua maneira de trabalhar?
• Que aspectos de sua convivência me agradaram ou despertaram dúvidas?
As lideranças
• Que experiências concretas me permitiram desenvolver confiança nas pessoas que poderão acompanhar minha formação?
• Existe alguma questão importante sobre suas responsabilidades ou o exercício de sua autoridade que ainda preciso esclarecer?
Minha vida concreta
• Tenho condições de assumir os compromissos conhecidos de tempo, estudo, participação e recursos materiais?
• Que necessidades ou responsabilidades pessoais preciso considerar para manter esse compromisso de maneira sustentável?
2. O que ainda preciso compreender?
Retome as perguntas que surgiram durante sua pesquisa e suas conversas.
• Quais dúvidas ainda permanecem?
• Alguma delas envolve condições essenciais de participação, segurança, consentimento ou responsabilidades que preciso conhecer antes de decidir?
• Que informações poderei compreender apenas com a continuidade da experiência?
• Há alguma conversa que gostaria de realizar antes de responder?
3. O que mudou desde o começo?
Ao comparar suas respostas com a Ferramenta 01, considere:
• Quais expectativas permaneceram importantes para mim?
• Que interesses ou necessidades descobri durante a procura?
• Existem condições que antes considerava indispensáveis e que agora compreendo de outra maneira?
• Quais valores e limites pessoais desejo preservar, independentemente do caminho que escolher?
4. Qual é minha decisão neste momento?
Considere as possibilidades abaixo. Escolha aquela que melhor corresponde à sua situação atual, lembrando que nem todas as decisões precisam ser definitivas. Continuar conhecendo a comunidade. Ainda desejo conversar, participar de outras atividades ou compreender melhor determinadas características antes de assumir um compromisso.
Aceitar a etapa proposta. Conheço suficientemente suas condições e desejo prosseguir com a aproximação, formação ou ingresso que me foi oferecido.
Aguardar. Meu interesse permanece, mas reconheço que preciso de mais tempo, informações ou condições pessoais diferentes antes de continuar. Encerrar a aproximação. Depois de refletir, compreendo que essa comunidade, esse caminho ou esse momento não corresponde à experiência que desejo viver. Minha decisão atual
O que mais contribuiu para essa escolha?
Estou decidindo porque reconheço valor nessa possibilidade ou principalmente porque temo perder uma oportunidade ou decepcionar alguém?
Qual será meu próximo passo concreto?
Lembre-se de que o grupo também participa dessa escolha. Manifestar interesse numa formação não garante que haverá um convite ou que a comunidade possuirá condições para recebê-lo.
5. Comunicando minha decisão
Se desejar, utilize os exemplos abaixo como ponto de partida. Adapte-os à relação que desenvolveu com a comunidade e às circunstâncias de sua escolha. Para confirmar interesse em prosseguir: Agradeço pelas conversas e pela oportunidade de conhecer melhor o trabalho de vocês. Depois de refletir sobre o que conversamos, gostaria de dar continuidade à aproximação e compreender como poderemos organizar os próximos passos.
Para pedir mais tempo: Agradeço pela conversa e pelo convite. Gostaria de refletir com um pouco mais de calma sobre os compromissos e, se for possível, retomar o assunto depois de esclarecer algumas questões.
Para encerrar uma aproximação inicial: Agradeço pelo tempo e pela atenção dedicados às nossas conversas. Depois de refletir, decidi não dar continuidade à aproximação neste momento. Foi importante conhecer um pouco do trabalho de vocês, e desejo que continuem bem em seus caminhos.
Para interromper uma formação em andamento: Gostaria de conversar sobre a interrupção de minha participação. Minhas condições atuais não me permitem continuar com as responsabilidades assumidas, e considero mais responsável comunicar isso com clareza. Podemos combinar as providências práticas pendentes?
Esses exemplos são apenas sugestões. Você não precisa inventar justificativas nem compartilhar informações íntimas para comunicar uma decisão. Quando houver uma relação de confiança, poderá desejar explicar suas razões com maior profundidade, mas isso não transforma sua permanência numa obrigação. Em situações de intimidação, ameaças ou risco, priorize sua segurança e escolha uma forma de comunicação que não o exponha.
Para Lembrar
Uma decisão consciente não exige que todas as suas perguntas tenham sido respondidas. Exige, entretanto, que você conheça suficientemente as condições do compromisso que pretende assumir e reconheça sua própria disposição para vivê-lo. Qualquer que seja sua escolha, procure fazê-la com respeito pelas pessoas que conheceu e com responsabilidade diante de si mesmo.
