MANUAL PARA BUSCADORES · CAPÍTULO 04
Capítulo 4 — O primeiro contato e a preparação para uma conversa
FLÁVIO LOPES · SPECULUM LUNAE
O primeiro contato formal com um coven pode parecer uma ocasião solene. Para quem está começando, existe até a sensação de que determinadas palavras precisam ser pronunciadas, de que se espera uma apresentação especial ou uma demonstração de conhecimento. Na maioria das situações, o que realmente facilita o diálogo é bastante simples: clareza, respeito e sinceridade.
Você pode começar dizendo quem é, de onde vem seu interesse pela Bruxaria e por que resolveu procurar aquela comunidade. Se já estudou ou praticou, conte um pouco de sua trajetória. Se está começando, diga isso. Não é necessário escrever uma autobiografia, listar todos os livros que leu ou utilizar termos iniciáticos cujo sentido ainda não compreende. A pessoa que receber sua mensagem precisa apenas de elementos para entender seu interesse e decidir se há condições de continuar a conversa. Procure também respeitar o tempo dos destinatários. Muitas comunidades são conduzidas por pessoas que possuem trabalho, família e outras responsabilidades. A ausência de uma resposta imediata não significa necessariamente desinteresse. Caso não haja retorno após um período razoável, uma única mensagem cordial de acompanhamento pode ser suficiente. Insistir repetidamente raramente ajudará a construir uma boa relação.
Também pode acontecer de você receber uma resposta informando que o coven não está aceitando novos integrantes ou que seus iniciadores não possuem disponibilidade para oferecer treinamento naquele momento. Procure receber essa informação com naturalidade. A decisão pode estar relacionada ao número de membros, às condições pessoais das lideranças ou às prioridades atuais da comunidade. Você pode agradecer pela resposta e, se considerar pertinente, perguntar se existem atividades públicas ou outras oportunidades de conhecer o trabalho do grupo futuramente. Entretanto, respeite a decisão comunicada, sem insistir para que seja aberta uma exceção em seu favor.
Preparando-se para conhecer alguém
Quando chega o convite para conversar com possíveis iniciadores, uma mistura de alegria e nervosismo pode acompanhar o buscador. Talvez você comece a imaginar o que deveria responder, como demonstrar seriedade e quais opiniões seriam mais bem recebidas. Afinal, está prestes a conhecer pessoas que representam um caminho religioso pelo qual pode nutrir profunda admiração, e é natural desejar causar uma boa impressão.
Essa preocupação, entretanto, pode levar alguém a construir uma imagem de si mesmo que não corresponde inteiramente à realidade. O buscador pode exagerar sua experiência, apresentar uma disponibilidade de tempo que não possui ou concordar com determinadas ideias apenas porque acredita que isso aumentará suas possibilidades de aceitação. Imagine, por exemplo, que um coven decida receber alguém porque acredita que essa pessoa possui todos os finais de semana disponíveis, aceita uma formação bastante hierárquica e deseja manter vínculos sociais intensos com o grupo. O que acontecerá quando, depois de alguns meses, descobrirem que nenhuma dessas características corresponde à realidade do novo integrante?
Lembre-se também de que seus interlocutores provavelmente estarão interessados em causar uma boa impressão. É natural que um sacerdote apresente a comunidade destacando sua história, seus valores e as experiências positivas que considera mais significativas. Não há necessariamente qualquer desonestidade nisso. Quando conhecemos alguém, costumamos apresentar primeiro aquilo que gostaríamos que o outro soubesse a nosso respeito. Somente com o tempo outras características, limitações e particularidades se tornam conhecidas.
Por isso, procure preparar-se para a conversa sem ensaiar um personagem. Você não precisa conhecer todas as respostas, demonstrar uma vocação extraordinária ou concordar antecipadamente com tudo o que seus interlocutores disserem. É preferível reconhecer uma dúvida ou uma dificuldade real a assumir compromissos que posteriormente não poderá cumprir. Se existe a possibilidade de construir uma relação de aprendizagem e confiança, ela será muito mais sólida quando as pessoas envolvidas puderem conhecer-se com alguma sinceridade.
Algumas perguntas verdadeiras
Antes do encontro, releia o que encontrou sobre a Tradição e sobre o coven. Procure identificar duas ou três perguntas que realmente gostaria de fazer. Talvez deseje compreender como são organizados os estudos, que tipo de compromisso se espera de alguém que está começando ou de que maneira os integrantes convivem fora das atividades rituais. Também pode querer saber como funciona o processo de aproximação e quais seriam os próximos passos caso exista interesse mútuo. Não formule perguntas apenas para demonstrar familiaridade com nomes de autores, conceitos ou terminologias iniciáticas. Uma dúvida simples e sincera pode produzir uma conversa muito mais proveitosa do que uma questão elaborada exclusivamente para impressionar. Da mesma maneira, não é necessário apresentar uma lista extensa de perguntas e esperar que todas sejam respondidas numa única ocasião. Algumas poderão ser esclarecidas naturalmente durante o diálogo; outras talvez precisem ser retomadas em encontros posteriores.
Esteja também disposto a ouvir respostas inesperadas. Pode acontecer de você descobrir que uma prática que imaginava central possui pouca importância naquele grupo, ou que o processo de formação é diferente daquilo que esperava. Talvez a liderança recomende que continue seus estudos por algum tempo antes de iniciar um treinamento formal. O importante é compreender que essa primeira conversa serve para que ambas as partes descubram se existe interesse em continuar se conhecendo. Não há necessidade de encerrá-la com uma decisão definitiva.
Segurança e privacidade
Para um primeiro encontro presencial, prefira um lugar público e neutro, como uma cafeteria tranquila, onde todos possam conversar com conforto. Combine previamente o local e o horário, cuide de seus deslocamentos e avise alguém de confiança onde estará, se isso lhe parecer adequado. Circunstâncias particulares podem exigir outras soluções, mas sua segurança merece atenção desde o início.
Lembre-se também de que conhecer um possível iniciador não significa entregar imediatamente a ele informações sobre todos os aspectos de sua vida. Questões familiares, afetivas, de saúde, sexualidade e outras experiências íntimas podem fazer parte de uma relação de confiança que se desenvolve ao longo do tempo, mas não precisam ser reveladas apenas porque alguém ocupa uma posição de autoridade religiosa. Naturalmente, algumas perguntas pessoais poderão possuir razões legítimas, especialmente quando estão relacionadas à sua disponibilidade ou às condições necessárias para participar de determinadas atividades. Caso alguma questão lhe pareça prematura ou demasiadamente invasiva, procure compreender por que aquela informação está sendo solicitada e considere o que deseja compartilhar naquele momento. Uma relação de aprendizagem também precisa respeitar o tempo necessário para que a confiança seja construída.
A ferramenta a seguir ajudará você a preparar o primeiro contato com uma comunidade e, posteriormente, organizar suas perguntas para uma conversa presencial ou remota. Utilize-a como orientação, sem a preocupação de seguir um roteiro rígido. O objetivo é chegar ao encontro conhecendo um pouco melhor aquilo que procura e dispondo de condições para se apresentar com sinceridade.
FERRAMENTA PRÁTICA · EXERCÍCIO 04
Ferramenta 04 — Preparando meu primeiro encontro
Quando utilizar: antes de escrever a uma comunidade pela primeira vez e, posteriormente, antes de participar de uma conversa presencial ou remota com seus representantes.
A aproximação com um coven costuma começar por uma mensagem, uma troca de correspondências ou uma conversa breve. Esta ferramenta ajudará você a organizar suas ideias nesses dois momentos, lembrando que não precisa oferecer uma apresentação perfeita de si mesmo.
1. Antes de escrever ao grupo Procure responder:
1. Por que resolvi procurar especificamente essa Tradição ou comunidade?
2. O que já conheço sobre suas atividades e sua apresentação pública?
3. Que aspecto de minha trajetória religiosa gostaria de compartilhar brevemente?
4. O que desejo saber neste primeiro contato? O grupo recebe interessados? Existe a possibilidade de participar de atividades públicas ou conversar com seus representantes?
Modelo de mensagem inicial
Olá! Meu nome é [nome] e tenho interesse em conhecer um pouco mais sobre o trabalho do coven. Venho estudando [aspecto pertinente] e me chamou a atenção [motivo concreto pelo qual procurou o grupo]. Gostaria de saber se vocês mantêm alguma forma de contato ou conversa inicial com pessoas interessadas. Agradeço desde já pela atenção e pela disponibilidade.
Adapte essa mensagem à sua experiência e às circunstâncias do contato. Não há necessidade de escrever longamente, listar toda sua bibliografia ou apresentar informações íntimas para demonstrar seriedade. Uma apresentação simples, cordial e sincera costuma ser suficiente.
2. Antes da primeira conversa Caso exista a oportunidade de conversar com representantes da comunidade, retome suas anotações e considere:
1. Que aspectos de minha trajetória religiosa ou de meus interesses gostaria de apresentar com maior profundidade?
2. Há assuntos sobre os quais ainda sei pouco e não preciso fingir conhecimento?
3. Qual disponibilidade real de tempo e deslocamento posso oferecer?
4. Que informações pessoais prefiro preservar até que exista uma relação de maior confiança?
5. Quais aspectos da identidade e do funcionamento do coven ainda gostaria de compreender?
Três perguntas que realmente gostaria de fazer
Pergunta 1
Pergunta 2
Pergunta 3
Se estiver com dificuldades para formular suas perguntas, considere algumas possibilidades:
• O que caracteriza o trabalho deste coven dentro de sua Tradição?
• O que vocês procuram conhecer sobre as pessoas interessadas em se aproximar?
• Que tipo de estudo e participação se espera de alguém que está começando?
• Caso exista interesse mútuo, como costuma acontecer a continuidade da aproximação? Você não precisa apresentar todas essas questões. Escolha aquelas que realmente tenham relação com seus interesses, permitindo que outras perguntas surjam espontaneamente durante a conversa.
3. Preparativos para o encontro Antes da data combinada, confira o local, o horário e a forma como a conversa acontecerá. Se for encontrar pessoas desconhecidas presencialmente, prefira um lugar público e neutro. Organize seus deslocamentos, reserve tempo suficiente para conversar com tranquilidade e considere avisar alguém de confiança sobre seus planos. Leve suas perguntas, se desejar, mas lembre-se de que elas são apenas uma orientação. O mais importante é estar disposto a ouvir, conversar e conhecer as pessoas com quem talvez venha a compartilhar uma parte importante de sua vida religiosa.
