ACERVO DIGITAL · MELISSA SEIMS · 2005
Ele traça o círculo
Agradecimento especial a Melissa Seims. A autora gentilmente autorizou a tradução e reprodução de seus artigos no Acervo Digital do Speculum Lunae. Melissa publica os volumes Literary Necromancer por sua editora, Liminal Gate Press. Conheça os livros em Literary Necromancer ↗ e visite a Liminal Gate Press ↗.

Escrevi este artigo porque, na época, havia muitas discussões na internet afirmando que somente uma Alta Sacerdotisa podia traçar o círculo. Àquela altura, Carl Weschcke, fundador da editora Llewellyn, havia me enviado cópias de documentos originais que recebera de Charles Clark, e pude perceber que isso simplesmente não era verdade nos primeiros tempos da Wica. Charles sempre me transmitira a ideia de igualdade entre os sexos na Arte, por isso resolvi me manifestar.
Em agosto de 1959, Gerald Gardner recebeu uma carta de Carl Weschcke, proprietário e diretor da editora ocultista norte-americana Llewellyn. Carl havia lido os livros de Gardner e queria saber se ele conhecia um aparelho chamado “berço das bruxas” (witches’ cradle), mencionado por William Seabrook no livro Witchcraft, Its Power and Influence Today. Tratava-se de uma espécie de “gaiola” suspensa que supostamente aumentaria a sensibilidade psíquica por meio de restrições dos movimentos associadas a um balanço monótono.
Gardner respondeu que jamais encontrara tal engenhoca, nem conhecia seu uso na Arte, e acrescentou: “Perguntei a muitas das bruxas mais antigas, e nenhuma delas jamais ouvira falar disso”. Depois de mais algumas cartas, indicou a Carl outras pessoas com quem poderia conversar, incluindo Margaret Bruce e Charles Clark.
Carl escreveu a Charles pela primeira vez em 1961, dando início a uma correspondência que duraria cerca de vinte anos. Numa carta de 1968, Charles mencionou possuir “algumas cópias dos rituais do falecido G. B. Gardner, que ele me enviava [a Charles] de tempos em tempos para que eu desse minha opinião” e perguntou se Carl se interessaria por elas. Quando Gardner ainda era vivo, Charles conversara com ele sobre a publicação de materiais, e Gerald concordara que isso poderia ajudar as pessoas a compreender melhor a Arte e seu significado.1
Por isso, Charles reuniu os papéis e os enviou a Carl em abril de 1969. Trechos foram publicados na revista Gnostica, da Llewellyn, mas os documentos realmente ganharam notoriedade quando Aidan Kelly obteve fotocópias e, posteriormente, escreveu sobre eles no livro Crafting the Art of Magic, no qual apareceu pela primeira vez a expressão “Documentos Weschcke”.23
Os “Documentos Weschcke” constituem uma coleção de trinta e oito páginas datilografadas de material ritual “gardneriano”. Incluem os oito sabás, “As Antigas Leis”, três formas de traçar o círculo, “Para obter a visão”, “O Caminho Óctuplo”, os três graus, consagrações, diversas versões da Carga e do Chifre de Amalteia, além de uma cópia do “Cântico das Bruxas”, conhecido hoje por muitos como “Runa das Bruxas”.
Muitos desses documentos contêm emendas manuscritas que, na maioria dos casos, parecem ser da própria letra de Gerald Gardner. Durante a década de 1950, documentos assim às vezes eram enviados a novos iniciados para que os copiassem em seus Livros das Sombras pessoais.
Quem já viu a caligrafia de Gerald sabe o quanto era um verdadeiro “garranchista” e como sua ortografia parecia ruim. Aidan Kelly sugeriu que ele teria uma leve dislexia; Philip Heselton atribuiu seu inglês precário e sua escrita fonética à falta de educação formal; Ronald Hutton levantou a hipótese de que sua “ortografia aberrante” seria uma tentativa de conferir aparência arcaica aos textos.45 Pessoalmente, considero esta última hipótese improvável, pois Gardner apresenta características semelhantes em sua correspondência particular.
Esses documentos datilografados, embora obviamente mais fáceis de ler, também exibem erros ortográficos semelhantes. Outra “peculiaridade” de Gardner — numa época anterior às mensagens de texto — era seu gosto por abreviar palavras. Às vezes escrevia “wd” em vez de “would” e “shd” em lugar de “should”.
Além disso, tinha o hábito curioso de usar a letra “l” minúscula da máquina de escrever em vez do “I” maiúsculo. Em alguns casos, chegava a substituir “I” por “L” maiúsculo; não é raro encontrar as duas formas num mesmo documento. Como acontece com tantas coisas ligadas a Gardner, ele nem sequer era inteiramente coerente em sua falta de rigor, o que considero bastante frustrante para os historiadores da Arte.
Entre os vários documentos, um dos que considero mais interessantes se intitula “All Are Purified” (“Todos são purificados”), com o subtítulo “Cerimônia para trabalhar com outras pessoas”.6 Trata-se essencialmente de uma forma de traçar o círculo que começa com uma conjuração da espada.
Se observarmos a passagem seguinte, retirada do livro Witchcraft Today, de 1954, penso que poderemos identificar a origem de seu título um pouco incomum:
“Depois de traçado, o círculo é cuidadosamente purificado, assim como todos os que celebram os ritos. As bruxas dão grande importância a isso, pois dentro do círculo fica o domínio dos deuses.”7
Todos são purificados8
(Segue-se a transcrição deste documento, que contém anotações de Gerald Gardner):
O Magus consagra o sal e a água.
A AS [Alta Sacerdotisa] ajoelha-se diante do altar, toma a espada e diz:
“Eu te conjuro, ó Espada de Aço, para que me sirvas de defesa em todas as operações mágicas. Guarda-me em todo momento contra meus inimigos, visíveis [sic] e invisíveis. Concede que eu obtenha aquilo que desejo em todas as coisas para as quais possa utilizar-te. Por isso te abençoo e te invoco em nome de … e …”
Entrega a espada ao Magus que, ajoelhado, lhe passa o recipiente de água consagrada e o aspersório [aspersor]. Ele traça o círculo, três círculos; ela o segue, aspergindo o círculo e todos os presentes e, finalmente, a si mesma. Devolve o recipiente etc. ao Magus, que os coloca no altar ou em algum lugar conveniente e lhe entrega a espada [anotação manuscrita].
A AS percorre lentamente o círculo, dizendo:
“Eu te conjuro, ó Círculo do Espaço, entre o mundo dos homens e o dos Temíveis Senhores dos ESPAÇOS EXTERIORES, para que sejas limpo [sic], purificado e fortalecido, tornando-te guardião e proteção que preservará e conterá AQUELE PODER que tão ardentemente desejamos elevar dentro de teus limites nesta noite. Por isso te abençoo e rogo que me ajudes nesse empreendimento, em nome de … e …”
Entrega a espada ao Magus [anotação manuscrita].
O Magus então convoca os Poderosos, como de costume.
A AS fica diante do altar (que pode ser afastado para isso) e assume a posição da Deusa [sic], com os braços cruzados.
O Magus, ajoelhado diante dela, traça um pentáculo [sic] sobre seu corpo com a varinha de ponta fálica e invoca (Puxar a Lua para Baixo):
“Eu Te invoco e suplico, ó poderosa MÃE de toda a vida e fertilidade. Pela semente e pela raiz, pelo caule e pelo botão, pela folha, pela flor e pelo fruto, pela Vida e pelo Amor, eu Te invoco para que desças [sic] ao corpo de Tua serva e AS…”
(Tendo a Lua sido puxada para baixo, isto é, estabelecido o vínculo, o M[agus] e os B[ruxos], todos os oficiais masculinos, dão os 5 B [quíntuplo beijo]; os demais se inclinam.)
A AS, na posição da Deusa, diz, de braços cruzados [anotação manuscrita]:
“Eu, a Mãe, sombria e divina, Meu é o açoite e meu é o beijo, A estrela de cinco pontas do amor e do deleite; Aqui vos encarrego sob este sinal (abre os braços na posição do pentáculo) Curvai-vos perante meu espírito luminoso (todos se curvam) Afrodite, Arianrhod [grafias originais corrigidas pela autora]; Amante do Deus Cornífero, Rainha da Bruxaria e da Noite.”
[Fim da transcrição; falta a segunda página.]

Creio que o emprego da palavra “Magus”, em vez de “HP” (Alto Sacerdote), a expressão “Temíveis Senhores dos Espaços Exteriores”, a inclusão da conjuração da espada e o fato de o círculo ser traçado três vezes são importantes indícios. Terminologia idêntica e práticas semelhantes aparecem no romance de Gardner High Magic’s Aid, publicado em 1949, e no Ye Bok of Ye Art Magical (também conhecido como BAM), considerado o Livro das Sombras “gardneriano” mais antigo que chegou até nós.
O Ye Bok está sob os cuidados de Richard e Tamarra James, da Wiccan Church of Canada, e acredita-se geralmente que Gardner o compilou e escreveu na década de 1940. Nesse caso, sua caligrafia é bastante legível e apresenta um estilo caligráfico que ele parece ter reservado aos escritos mágicos.
O Ye Bok contém várias seções facilmente reconhecíveis como material típico de um Livro das Sombras, além de uma composição heterogênea de rituais e anotações de magia cerimonial. Há, por exemplo, páginas de sigilos extraídos da Clavícula de Salomão, na tradução de S. L. “MacGregor” Mathers, e passagens retiradas das obras de Aleister Crowley e de ritos da maçonaria, entre outras fontes.
De modo semelhante, High Magic’s Aid combina material reconhecivelmente “gardneriano” com uma generosa dose de “alta magia”. W. E. Liddell afirmou que:
“Gardner foi apresentado, em 1941, a uma loja de cunning folk por um colega do sexo masculino de New Forest e teve contato com uma organização quase maçônica que combinava magia cerimonial, maçonaria, paganismo e bruxaria. A experiência reforçou sua ênfase no Deus e no magus.”9
Embora esse cenário pareça compatível com os fatos, considero-o apenas uma explicação possível para a presença mais acentuada de magia cerimonial no Ye Bok, quando comparado aos materiais distribuídos por Gardner a seus iniciados na década de 1950.
No Ye Bok, as palavras “Magus”, “Master” (“Mestre”) ou simplesmente “M” são usadas com frequência para indicar o papel masculino. Cerca de uma década depois, porém, nos escritos mágicos de Gardner dos anos 1950, esse termo parece ter sido geralmente substituído por “HP” (Alto Sacerdote).
O material mais tardio também costuma apresentar o círculo traçado uma única vez, e não três, seguido de aspersão e incensação. Além disso, a expressão “Temíveis Senhores dos Espaços Exteriores” pode ser encontrada “escondida” à vista de todos — outra peculiaridade de Gardner — em High Magic’s Aid:
“Vendado e indefeso, ele permaneceu no Triângulo, do lado de fora, separado do Círculo Protetor, intermediário entre o agradável mundo dos homens e os Temíveis Senhores dos Espaços Exteriores.”10
Conjurações do círculo mais tardias costumam empregar, em vez disso, a expressão “…Reinos dos Poderosos”.
No final da década de 1950, a conjuração da espada também deixara de integrar a abertura típica do círculo, embora uma passagem semelhante normalmente fosse usada em sua consagração. O documento me levou a perguntar se, ao mencionar a criação do círculo com uma espada ou athame “devidamente consagrado”, Gardner talvez tivesse pensado, em algum momento, que a consagração deveria ser feita todas as vezes. Isso certamente seria compreensível, considerando seu gosto por espadas e armamentos.
Em conjunto, a terminologia, a conjuração da espada e o círculo traçado três vezes estão mais próximos do estilo dos primeiros escritos preservados de Gardner. Por essas semelhanças, considero “All Are Purified” um dos documentos mais antigos da coleção Weschcke. Entretanto, a presença, no final, da versão em versos da Carga escrita por Doreen Valiente indica que ele necessariamente foi produzido depois de 1953, quando Doreen ingressou na Arte. O próprio Charles foi iniciado cerca de um ano depois, de modo que penso que a data do documento seja próxima àquela época.
“All Are Purified” é interessante tanto pelas pistas textuais que oferece para sua datação quanto por mostrar maior igualdade — se não uma preferência efetiva — em favor do Magus, em vez da Alta Sacerdotisa. É ele quem primeiro “traça o círculo” e quem parece ter a responsabilidade exclusiva de consagrar o sal e a água e convocar os Poderosos. Curiosamente, o ritual de iniciação do primeiro grau presente no Ye Bok parece apresentar um Magus iniciando um “Sacerdote e Bruxo”.11 Contudo, a cópia desse ritual que Gardner datilografou alguns anos depois, quase certamente a partir do Ye Bok, para entregar a Doreen Valiente foi alterada, de modo que o Magus agora inicia uma Sacerdotisa e Bruxa.12
Refletindo sobre isso, penso que “All Are Purified” também nos revela algo sobre o desenvolvimento da Arte e de seus materiais, podendo representar um momento de transição entre os escritos mais antigos de Gardner, mais orientados para o masculino e carregados de magia cerimonial, e os covens mais centrados na Alta Sacerdotisa que surgiram na década de 1960.
Não sei ao certo o que provocou essa mudança, mas talvez esteja ligada à transformação cultural que deixou para trás o medo e as restrições decorrentes da Segunda Guerra Mundial e caminhou em direção ao movimento das mulheres e à libertação geral que marcaram os anos 1960. Também apostaria que a sempre diligente Doreen Valiente teve participação nisso, especialmente porque, com a permissão de Gardner, ela já se dedicava a reescrever partes do primeiro Livro das Sombras que ele lhe entregara, de modo a disfarçar as marcas do material de Crowley.13
Se o documento “All Are Purified” tivesse encontrado seu caminho até mais Livros das Sombras, nossa Arte talvez tivesse adquirido uma feição ligeiramente diferente. Quem sabe fosse mais comum ver Altos Sacerdotes consagrando o sal e a água e convocando os Poderosos “como de costume”. Em vez disso, por vezes surgem longos debates sobre assuntos como esse.
Minhas conversas com Charles Clark me deram a impressão de que as coisas eram muito mais igualitárias na década de 1950 e que os membros da Wica daquele período se sentiam livres para adaptar os rituais às pessoas de seus covens, usando os ritos como estrutura básica e ponto de partida. Essa concepção aparece também no livro Fifty Years of Wicca, de Fred Lamond, que cita Gardner dizendo:
“…à medida que adquirirem experiência, descartem os feitiços que não funcionam para vocês e substituam-nos por outros que vocês próprios tenham concebido.”14
Se passarmos aos oito sabás incluídos nos “Documentos Weschcke”, veremos que o termo aparentemente mais tardio “HP” é usado de maneira consistente em lugar de “Magus”. Além disso, a semelhança entre todos os documentos dos sabás sugere fortemente que foram datilografados na mesma ocasião.
Fred Lamond conta em seu livro já citado:
“Nós [do coven de Bricket Wood] gostávamos de nossos banquetes e, depois que Gerald voltou à Ilha de Man na primavera de 1958, decidimos celebrar com banquetes tanto os dias intermediários entre as estações quanto os solstícios e equinócios.”15
À luz de tudo isso, parece provável que os textos dos sabás presentes nos Documentos Weschcke tenham sido escritos pouco depois dessa data.
O que me agrada na pesquisa e comparação desses escritos originais de Gerald Gardner é a possibilidade de vislumbrar os pensamentos e a mente do velho Gerald. Não creio que possamos examinar essas coisas isoladamente; considero essencial entendê-las como partes de um quebra-cabeça muito mais amplo, que inclui tanto a vida e a formação de Gardner quanto o clima político e social da época. Esses elementos, juntamente com os rituais e ensinamentos fragmentários que se acredita terem chegado a ele pelo coven de New Forest, teriam influenciado a maneira como Gerald e outras pessoas escreveram os rituais e desenvolveram nossas práticas. Tudo isso, por sua vez, contribuiu para o crescimento do movimento espiritual em que a Arte se transformou.
Meus agradecimentos a três “Mensageiros dos Deuses”: Paul Greenslade, Philip Heselton e Ken Rees, por seus comentários e conselhos.
Notas da autora
1. Numa carta enviada a mim, Charles escreveu: “Lembro que Carl Weschcke disse que escreveria sobre aqueles papéis que lhe foram entregues [os ‘Documentos Weschcke’]; GB [Gerald Gardner] concordou comigo que isso ajudaria muito”.
2. Atualização: o livro foi revisado e republicado como Inventing Witchcraft (Thoth, 2020).
3. Aidan Kelly, Crafting the Art of Magic (Llewellyn, 1991), p. xv.
4. Philip Heselton, Gerald Gardner and the Cauldron of Inspiration (Capall Bann, 2003), p. 281.
5. Ronald Hutton, The Triumph of the Moon (Oxford, 1999), p. 227.
6. O subtítulo “Cerimônia para trabalhar com outras pessoas” aparecia no Livro das Sombras de Charles Clark, mas não no documento propriamente dito.
7. Gerald Gardner, Witchcraft Today (Arrow Books, 1970), p. 28.
8. Gerald B. Gardner, Witchcraft and the Book of Shadows (I-H-O Books, 2004), p. 60; Aidan Kelly, Crafting the Art of Magic (Llewellyn, 1991), p. 109. O texto também pode ser encontrado em diversos sites.
9. W. E. Liddell, The Pickingill Papers (Capall Bann, 1994), p. 158.
10. Gerald Gardner, High Magic’s Aid (Pentacle Enterprises, 1993), p. 3.
11. Gerald Gardner, Ye Bok of ye Art Magical, p. 96 (consultável mediante acordo com Richard e Tamarra James, da Wiccan Church of Canada).
12. Doreen Valiente, The Rebirth of Witchcraft (Phoenix, 1989), ilustração 12.
13. Doreen Valiente, The Rebirth of Witchcraft (Phoenix, 1989), pp. 61–62.
14. Frederic Lamond, Fifty Years of Wicca (Green Magic, 2004), p. 14.
15. Frederic Lamond, Fifty Years of Wicca (Green Magic, 2004), p. 20.
Consultar a versão no site The Wica. Melissa Seims também disponibiliza este artigo em inglês em seu site. Ler o artigo no The Wica ↗
