ACERVO DIGITAL · TEXTO HISTÓRICO

A Rosa do Mundo

REFERÊNCIA DA PUBLICAÇÃO ORIGINAL

The Occult Review · setembro 1930 · volume 52, n.º 3 · páginas 179–182. Autoria: R. Sabine (Rosamund Sabine).

Digitalização disponibilizada pelo IAPSOP — acervo de The Occult Review ↗.

Contexto histórico e relevância para o acervo. Rosamund Isabella Charlotte Sabine (1865–1948), conhecida como Mother Sabine, foi uma ocultista residente em Highcliffe, familiarizada com as tradições mágicas da Golden Dawn. A partir de uma anotação de Doreen Valiente, o historiador Philip Heselton a identificou como possível integrante do círculo associado ao chamado coven de New Forest, ao lado de Dorothy Clutterbuck e Katherine Oldmeadow. Heselton chama atenção para a recorrência da rosa nesse ambiente: presente neste artigo, evocada nos poemas de Dorothy e associada ao simbolismo rosacruz, que também permeava a Fraternidade Rosacruz de Crotona, frequentada por Gardner, Edith Woodford-Grimes (Dafo) e membros da família Mason. Embora essas conexões permaneçam hipotéticas, o artigo constitui um importante testemunho do universo esotérico compartilhado por algumas das figuras possivelmente envolvidas nas origens da Wicca gardneriana.

Este texto também está disponível na transcrição original em inglês. Consultar o original em inglês ↗

Tradução para o português · texto integral

Esta maravilhosa Rosa é talvez mais abrangente do que qualquer outro símbolo ocultista, e compreendê-la plenamente seria conhecer o significado do Universo. Suas pétalas radiantes estendem-se pelo espaço, envolvendo nosso sistema solar como um cinturão de estrelas, pois elas são as constelações do Zodíaco, os tronos ou moradas daquelas hierarquias celestes que criaram e ainda sustentam todas as coisas das quais temos algum conhecimento, além de muitas outras que permanecem fora de nosso alcance. Elas foram concebidas pelo Criador arquetípico, quando o Uno se manifestou como os muitos, e colocadas nos céus para unir o Universo como uma corrente de diamantes. Delas todos os mundos recebem vida e inspiração. Aqueles que estão estabelecidos no espaço como um rei em seu trono também estão presentes no coração dos homens como um rei na guerra, influenciando suas naturezas para o bem ou para o mal, para o sucesso ou para o fracasso. Na Natureza, a Ísis velada, auxiliam a evolução, combatendo a ignorância e fortalecendo aquilo que é fraco. Suas vibrações determinam o temperamento e, consequentemente, o destino de cada criança quando ela respira pela primeira vez nesta terra, e talvez aconteça o mesmo nos outros mundos. À medida que percorrem os meses do ano solar, trazem o tempo da semeadura e da colheita, o verão e o inverno, como um rei que percorre seus domínios, com poder e autoridade sobre todas as coisas. Contudo, diferentemente dos monarcas mortais, não podem errar nem ser enganadas.

Reflitamos um pouco sobre esse vasto assunto. No lado norte do Templo encontrava-se a mesa sobre a qual eram colocados doze pães da proposição, como emblemas do Pão da Vida. Sobre cada pão havia uma pequena porção de incenso, que era queimada no Altar cúbico central, representando a quintessência extraída da Natureza, ou o ouro do alquimista, enquanto os próprios pães eram consumidos pelos sacerdotes. Esses doze pães correspondiam às doze letras simples do alfabeto hebraico, e a cada uma delas também era atribuído um signo do Zodíaco, da seguinte maneira:

Áries, ♈. He, ה. Touro, ♉. Vau, ו. Gêmeos, ♊. Zayin, ז. Câncer, ♋. Cheth, ח. Leão, ♌. Teth, ט. Virgem, ♍. Yod, י. Libra, ♎. Lamed, ל. Escorpião, ♏. Nun, נ. Sagitário, ♐. Samekh, ס. Capricórnio, ♑. Aigin, ע. Aquário, ♒. Tzaddi, צ. Peixes, ♓. Qoph, ק.

Essas são as doze pétalas externas da mística Rosa do Mundo. Suas vibrações permeiam o espaço, e suas harmonias constituem a música das esferas; suas dissonâncias, ou forças mal empregadas, representam a ruína de continentes ou nações.

A ignorância é a mais fatal de todas as maldições. O homem insensato contempla o véu de Ísis e enxerga apenas suas dobras profundas e envolventes, repletas de terror e obscuridade. Ele teme a escuridão e é o joguete de forças terríveis que, por fim, destruirão seu corpo físico. O homem sábio compreende que a Natureza é a vestimenta viva de Deus. Ele ergue o véu de Ísis e contempla o esplendoroso reflexo do Criador do Universo, terrível apenas quando imperfeitamente compreendido, tornando-se cada vez mais radiante de beleza e doçura à medida que é melhor conhecido. Na medida de seu conhecimento, pode controlar e utilizar as forças em movimento, beneficiando a si mesmo e aos seus semelhantes. Os espíritos da Natureza reconhecem seus mestres. A cada século que passa, o conhecimento humano cresce e, com ele, embora mais lentamente, vem a sabedoria. Já somos capazes de dominar os relâmpagos e utilizar as forças do calor e da água de maneiras que teriam parecido bruxaria aos nossos antepassados; aos que vierem depois de nós, pareceremos tão ignorantes quanto nossos predecessores medievais nos parecem hoje. Agora começamos a ouvir as vibrações de músicas ou vozes a milhares de quilômetros de distância, a contemplar no cinematógrafo acontecimentos do passado e a fixar as imagens vivas produzidas pelo sol. Os animais, as aves e as flores são verdadeiramente chamados de fragmentos dispersos do Corpo Divino, manifestados na matéria; o mar e os ventos são nossos irmãos, partes de Deus assim como nós.

A Psicologia é agora uma ciência reconhecida. A telepatia, a clarividência e outros assuntos semelhantes são fatos estabelecidos. A psicanálise, o hipnotismo e a sugestão são métodos reconhecidos de tratamento médico. Por toda parte, os limites do mundo material se aproximam do plano psíquico ou astral, ou chegam mesmo a entrar em contato efetivo com ele. Aquele que tem olhos para ver, que veja; aquele que tem ouvidos para ouvir, que ouça.

O alfabeto hebraico consiste em 22 letras e é considerado de origem divina; há 12 letras simples (l.s.), sete letras duplas (l.d.) e três letras-mães (l.m.), dispostas em ordem alfabética da seguinte maneira:

א Aleph (l.m.). ב Beth (l.d.). ג Gimel (l.d.). ד Daleth (l.d.). ה He (l.s.). ו Vau (l.s.). ז Zayin (l.s.). ח Cheth (l.s.). ט Teth (l.s.). י Yod (l.s.). כ Kaph (l.d.). ל Lamed (l.s.). מ Mem (l.m.). נ Nun (l.s.). ס Samekh (l.s.). ע Aigin (l.s.). פ Pé (l.d.). צ Tzaddi (l.s.). ק Qoph (l.s.). ר Resh (l.d.). ש Shin (l.m.). ת Tau (l.d.).

O segundo círculo da Rosa consiste em sete pétalas, atribuídas aos planetas e às sete letras duplas, assim, em sua ordem alfabética:

ב Beth, ☿ Mercúrio. ג Gimel, ☽ Lua. ד Daleth, ♀ Vênus. כ Kaph, ♃ Júpiter. פ Pé, ♂ Marte. ר Resh, ☉ Sol. ת Tau, ♄ Saturno.

Nessa atribuição, a Terra não é considerada um planeta, enquanto Urano e Netuno são compreendidos pelos astrólogos como oitavas superiores de Mercúrio e Vênus, representando o ocultismo superior e o amor espiritual. Nós, na Terra, estamos apenas começando a perceber essas vibrações e, consequentemente, tomamos consciência dos dois primeiros planetas dessa oitava superior.

Ao atravessarmos as sete pétalas situadas no interior do círculo externo de doze, as vibrações zodiacais são divididas em pares de opostos, segundo o sistema de funcionamento familiar a todos os estudantes de ocultismo, sobre o qual se fundamentam todas as condições da vida terrestre. Nada existe sem seu oposto. Esses opostos manifestam-se como negativo e positivo, masculino e feminino, dia e noite, verão e inverno, alegria e tristeza, e assim por diante em toda a criação. Esse foi o plano original das hierarquias celestes no princípio do mundo, e temos delas a garantia de que essa ordem não cessará até a chegada da Noite Cósmica, quando tudo será dissolvido e se tornará infinito e sagrado; quando a inspiração do Criador recolherá para dentro de Si tudo aquilo que d’Ele procedeu. Esses pares de opostos são simbolizados pelas místicas colunas negra e branca do ocultismo, entre as quais o neófito passa durante a iniciação, a entrada que se abre àqueles que buscam o conhecimento oculto. O fluxo e o refluxo das marés, tanto psíquicas quanto físicas, também são causados por pares de opostos. Deve-se compreender que não existe uma linha divisória rígida entre os opostos, mas apenas gradações. Até mesmo o bem e o mal se fundem imperceptivelmente um no outro. As colunas negra e branca se dissolvem uma na outra; a coluna de fogo durante a noite é a coluna de nuvem durante o dia. Considerem os opostos do mar e do céu na linha do horizonte, e também como a cor e o som se misturam.

O candelabro de ouro com sete braços, que se encontrava no lado sul do Templo, diante da mesa dos pães da proposição, representava o segundo círculo da Rosa, com os planetas e as letras duplas. Com a entrada situada a oeste, através da porta verde de Vênus, a estrela vespertina, o Santo dos Santos a leste e o Altar cúbico do incenso no ponto central, formava-se assim a Cruz do sacrifício, à qual toda a criação está ligada. Mas sobre a Cruz floresce a radiante Rosa do Mundo. O número sete é particularmente sagrado, regendo os dias da semana, os sete períodos da Criação, os portais da alma humana e as sete cores prismáticas do arco-íris, juntamente com as sete notas da escala musical, pois cor e som são intercambiáveis. O vermelho, símbolo da força irresistível, pertence a Marte; o laranja, ao Sol, luz do mundo; o amarelo-limão claro, a Mercúrio, associado ao intelecto; o verde, tonalidade do crescimento e do progresso por meio do amor, a Vênus; o azul, à Lua, senhora das águas; o púrpura real, ao majestoso Júpiter; e o índigo profundo, a Saturno, significando restrição, melancolia e contenção sóbria. A cada uma das letras duplas estão associados dois sons, um forte e outro suave, simbolizando o contraste entre os pares de opostos.

O menor círculo de pétalas, ou círculo mais interno, consiste nas três letras-mães, Aleph א, Mem מ e Shin ש, correspondentes aos elementos. Shin é o fogo, Mem é a água e Aleph é o ar que vibra entre ambos; a terra, por sua vez, não seria verdadeiramente um elemento, mas um composto dos outros três. Na realidade, todos os elementos são intercambiáveis, tendo se originado do Uno. O estudo de seus símbolos ilustrará isso. O leão, que representa o fogo, é um animal terrestre; a águia, à primeira vista, parece um símbolo curioso para a água, mas representa a umidade superior do firmamento, a Águia das nuvens; o homem representa o ar, inquieto e sutil, sempre investigando e procurando penetrar as coisas ocultas.

O Altar cúbico, situado no ponto central do Templo, era negro, representando a terra corruptível, e sobre ele encontrava-se um pequeno altar dourado, representando a quintessência, ou o ouro do conhecimento oculto que pode ser extraído da Natureza. Assim, o puro é separado do impuro, e o ouro refinado do espírito é extraído do dragão negro do corpo perecível. Sobre o altar estavam o fogo, a água e o incenso, correspondentes às três letras-mães. Shin possui um som sibilante, Mem é silenciosa e Aleph é como o fiel de uma balança, em equilíbrio entre esses contrários, reconciliando-os e mediando entre eles. No ciclo do ano, dão origem às estações quentes, frias e temperadas. Esse altar cúbico duplo, no centro do Templo, era, portanto, um emblema da Natureza visível, que oculta dentro de si os mistérios de todas as dimensões, mas revela apenas sua superfície aos sentidos externos. Era um cubo duplo porque as coisas que estão embaixo são um reflexo das coisas que estão em cima. O mundo dos homens e das mulheres, nascidos para o sofrimento, é um reflexo do mundo habitado por seres criados para a alegria. Na verdade, a felicidade é a herança legítima de todas as coisas, e a dor é o resultado da ignorância. À medida que o conhecimento e a sabedoria aumentarem, a alegria se tornará o estado natural de toda a criação. O último inimigo a ser destruído é a Morte.

No coração da Rosa encontra-se o lugar da santidade. Esse é o centro da vida, a morada do Uno, que é a fonte de todas as coisas e que se manifesta por todo o Universo. Ele é incompreensível para nós, podendo ser expresso apenas pelo silêncio.


Tradução em português preparada a partir do texto da edição de setembro de 1930. Ortografia, correspondências astrológicas e letras hebraicas da fonte transcrita foram preservadas.

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