
ACERVO DIGITAL · DOCUMENTOS HISTÓRICOS
Sim, sou um bruxo
Daily Dispatch · 5 de agosto de 1954 · 1954
Apresentação histórica
Entrevista jornalística de 1954 na qual Gerald Gardner apresenta publicamente sua identidade religiosa e comenta o cotidiano da bruxaria, suas práticas e o museu em Castletown. O documento foi produzido no ano de lançamento de Witchcraft Today e oferece acesso à maneira como Gardner respondia à curiosidade e às perguntas da imprensa.
Referência e fac-símile
Publicação: Daily Dispatch, 5 de agosto de 1954.
Autoria: Arnold Field.
Título original: Yes, I Am a Witch.
Extensão do fac-símile: duas páginas digitalizadas.
Tradução integral em português
CASTLETOWN, quarta-feira à noite.
Em minha vida, conheci muitas bruxas: interesseiras, traidoras e destruidoras de corações. Agora conversei com alguém que se declara bruxo — um HOMEM, ainda por cima.
Foi uma experiência estranha. Jamais esquecerei seu rosto anguloso nem seus penetrantes olhos azuis. Tampouco esquecerei o lugar onde ocorreu a entrevista.
A Ilha de Man é rica em folclore sobre fadas, “pequenas criaturas” dos vales e bruxas. Mas nenhum ser humano do século XX ousou admitir: “Sou um bruxo”. Ninguém, exceto GERALD BROSSEAU GARDNER. Ele diz possuir um doutorado em Filosofia, título honorário concedido pela Universidade de Singapura há vinte anos.
O sol já havia se posto e a noite estava fria quando atravessei o campo de carro e parei diante de uma casa de quatro cômodos numa rua estreita daqui.
Wica
Um homem de quase um metro e oitenta e três veio atender à porta. Parecia um dignitário benevolente. Tinha uma farta cabeleira branca e barba à Van Dyck. Usava pulôver verde, camisa de gola aberta, calças xadrezes e sapatos marrons. Eu disse: “Dr. Gardner, suponho?” “Entre”, convidou-me. Sua voz era suave e suas maneiras, afetuosas.
Acomodou-se numa poltrona, segurando seus braços. Não pude deixar de notar seus olhos fundos e penetrantes. No dedo anelar de cada mão havia um anel pesado; uma pulseira de bronze repousava sobre seu pulso. Perguntei se tinha outros adornos. Mostrou-me os braços tatuados: uma serpente, uma âncora, um dragão e uma adaga.
Estávamos ali, em sua cozinha. Grandes toras não queimadas ocupavam a lareira. Adagas, lanças e outras armas pendiam das paredes.
Comecei sem rodeios: “O senhor é um bruxo?” Ele respondeu: “Sim, sou”. Logo acrescentou que seu nome na bruxaria era “S’cire” e explicou que existem bruxos e bruxas. Cada um é chamado de wica.
Tudo muito interessante, observei, mas eu não era nenhum ingênuo e já havia conhecido todo tipo de personagem. Ele se oporia a perguntas incisivas, a uma espécie de interrogatório provocativo? Não, não se importava.
Disse que nascera na Escócia setenta anos antes e viera morar na ilha havia quatro anos. Trabalhara como plantador de borracha e chá e servira ao governo de Johore como principal funcionário da alfândega.
Dançaram em círculo
Prossegui com as perguntas. Primeira resposta: “Fui iniciado como bruxo em 1939. Fui a um coven na Inglaterra. Havia outros quinze bruxos presentes. Dançamos no círculo, que nos dá poder para lançar encantamentos.”
Quantos covens há na Inglaterra? “Três”, respondeu o bruxo. “Reunimo-nos em casas ou em outros lugares.” Existem outras formas de ritual? “Não posso dizer nada sobre isso.” Há outros bruxos na Ilha de Man? “Também não posso dizer nada sobre isso.” Como se comunicam? Por carta ou telefone.
“Como nos vestimos quando nos reunimos?” Então o bruxo riu. Uma risada muito humana, daquelas que se ouvem nas multidões de turistas que desfilam alegremente pelo calçadão. “Bem”, insisti, “como vocês se vestem?”
Escreveu livros
O bruxo puxou a barba. O riso cessou. “Há uma semelhança”, veio a resposta, ainda em tom suave. Eles ficavam nus? “Não posso dizer nada sobre isso”, respondeu.
O bruxo contou que escrevera livros sobre bruxaria e mostrou uma carta de uma respeitável editora londrina que aceitara seu trabalho.
Quantos bruxos há na Inglaterra? O bruxo hesitou por um ou dois instantes. “Não sei ao certo”, disse, “mas posso afirmar que nenhuma bruxa jamais voou pelos ares — até o surgimento dos aviões”. Esse bruxo tem bastante senso de humor. “E também não usam vassouras”, acrescentou.
Entrou na cozinha uma mulher de rosto agradável, estatura média e cabelos grisalhos. Era a sra. DOROTHEA FRANCES GARDNER, esposa do bruxo. Estavam casados havia vinte e seis anos.
Ela se sentou num banco de estilo monástico e começou a tricotar. “A senhora é uma bruxa?”, perguntei. “Meu Deus, não”, respondeu. “Estou bem como sou. Nunca quis ser bruxa, embora tenha conhecido muitas.”
Como hipnotismo
Ela me garantiu não sentir medo, apesar de o marido ser bruxo. “Como eu poderia me assustar com aqueles bondosos olhos azuis?”
Retomei a conversa com o bruxo. Queria saber se poderia me tornar um deles. Quais eram os requisitos? “Apenas que precisássemos gostar de você”, disse o bruxo, observando-me.
Não, ele não podia lançar um encantamento sozinho. Precisaria de outra bruxa a seu lado. Não, nenhum bruxo ousaria lançar um feitiço maligno. Teria “todos os outros bruxos contra ele ou ela”.
Continuou: “A bruxaria é, na verdade, um hipnotismo de longo alcance. Só queremos ajudar as pessoas.”
Nesse momento, lembrei-me da temporada de futebol que se aproximava. O bruxo poderia ajudar alguém a ganhar 75 mil libras nas apostas esportivas? Ele respondeu: “Ah, não. Não podemos lançar um feitiço para realizar um ato material, embora, antigamente, os bruxos de cada comunidade fossem capazes de proporcionar boa pesca, boa caça e fertilidade às plantações.”
Era hora de passar ao lado mais leve desse assunto.
Há bruxas bonitas? — Muitas, dos dezesseis anos em diante.
Elas saem com rapazes? — Sim.
Permitem que recebam um beijo de boa-noite? — É claro, se gostarem do rapaz.
Podem lançar um encantamento para fazer os homens adorá-las? — Sim.
Contam aos acompanhantes que são bruxas? — Ah, meu Deus, não!
Pensem nisso, senhores: vocês podem ter saído com uma bruxa de verdade!
Levantei-me para ir embora, mas S’cire, o bruxo, convidou-me a conhecer uma sala no andar superior. Ela havia feito parte de um celeiro. Havia ali uma mesa com dois pedestais sobre os quais estavam dispostos castiçais. O bruxo concordou que se tratava de um altar improvisado.
Cortinas de cores alegres cobriam uma janela aberta em paredes de pedra de quase um metro de espessura. “Vocês praticam aqui?”, insisti. Mais uma vez o bruxo riu. E tornou a responder: “Não posso dizer nada sobre isso.”
De repente, vi uma adaga sobressaindo de seu bolso traseiro. Ele a retirou lentamente e explicou que era usada para traçar um círculo. Afastou-se alguns centímetros do “altar”. Eu o acompanhei. Mostrou um círculo no chão.
O Moinho das Bruxas
Apenas mais uma pergunta ao bruxo. De que ele vivia? Não hesitou: “Recebo uma pensão do governo de Johore e tenho investimentos.” Ele também é proprietário do Moinho das Bruxas, visitado por turistas.
Desejei boa-noite ao bruxo. Ele sorriu e disse esperar que eu tivesse passado uma noite interessante. Saí. O ar estava mais frio. O céu estava escuro.
Eu não estava incomodado nem perplexo. E certamente tampouco estava enfeitiçado!
Legendas e documento autógrafo
Legenda da fotografia: “Dr. Gerald Brosseau Gardner aponta objetos expostos no Museu da Bruxaria, no Moinho das Bruxas, Castletown.”
Nota manuscrita: o segundo recorte reproduz uma anotação autógrafa de Gardner no caderno do repórter Arnold Field. Entre os trechos legíveis, ele identifica seu nome na Arte como “Scire”. A anotação manuscrita não integra o corpo da entrevista.
Notas editoriais
Nota de revisão da fonte: A manchete “Yes, I Am a Witch” encontra-se repartida entre os dois recortes. A data impressa foi identificada como 5 de agosto de 1954; as anotações manuscritas não fazem parte do artigo. O nome “wica” foi registrado pelo repórter; não devemos normalizá-lo para “wicca” ou atribuir a formulação exata diretamente a Gardner.
O título integral inclui uma chamada secundária sobre Gardner como médico de Castletown. No fac-símile aparece uma anotação manuscrita; ela deve ser identificada como intervenção posterior, não como texto jornalístico. A transcrição preservará as falas atribuídas a Gardner e os subtítulos impressos.
Créditos e navegação
Fac-símile digital disponibilizado pelo arquivo The Wica. Transcrição, tradução e notas editoriais: Coven Speculum Lunae.
