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Por que a bruxaria?

Prediction · maio de 1964 · 1964

Apresentação histórica

Artigo de Doreen Valiente sobre a bruxaria, publicado na revista Prediction em maio de 1964. Como documento escrito por uma participante central da tradição, interessa à pesquisa sobre a apresentação pública de crenças e ideias religiosas no período imediatamente posterior à morte de Gerald Gardner.

Referência e fac-símile

Publicação: Prediction, maio de 1964.

Autoria: Doreen Valiente.

Título original: Why Witchcraft?

Extensão do fac-símile: 2 página(s).

Consultar o PDF original em inglês no The Wica ↗

Acessar a coleção de origem no The Wica ↗

Tradução integral em português

Por que a bruxaria em 1964? É indiscutível que a bruxaria ressurgiu em nossos dias. Desde 1951, quando a última das leis contra a bruxaria neste país foi revogada, ela tem aparecido cada vez mais nas notícias.

Homens da Igreja fizeram advertências contra ela. Pessoas que afirmam ser bruxas apareceram na televisão para defendê-la. As controvérsias em torno dos covens atuais têm animado a imprensa.

Foram abertos museus particulares com coleções de objetos ligados à bruxaria e à magia. Eu mesma mostrei alguns objetos de minha pequena coleção na televisão em três ocasiões.

O interesse tampouco se limita a este país. Recebi de amigos na América catálogos impressos, com formulários comerciais de encomenda, de fornecedores americanos voltados a aspirantes a bruxos.

Eles oferecem velas, incenso, óleos para unção, ervas às quais se atribuem virtudes mágicas, pedras-ímã, “cera para efígies” destinada à fabricação de imagens, pergaminho virgem para a inscrição de talismãs, bolsas e cintos de pele de cordeiro com bolsos ocultos para carregar amuletos, além de livros ocultistas de toda espécie.

Esses catálogos não vêm de lugares remotos no interior, mas de Nova York, Minneapolis e São Francisco.

Nesta última cidade, Roy Heist, um taxidermista de oitenta anos, comercializa há trinta e três anos ingredientes de origem animal para feitiçaria, desde espinhas dorsais de serpentes até chifre de rinoceronte em pó. Seu comércio alcança o mundo inteiro.

No ano passado, ele afirmou que os negócios vinham crescendo a cada ano desde a Segunda Guerra Mundial e que a crença na bruxaria era “muito, muito difundida”. O comércio estava especialmente movimentado em Nova York, Chicago, Nova Orleans e Los Angeles.

Roy Heist tornou-se conhecido como “Dr. Voodoo”. Voodoo é o nome dado nos Estados Unidos a muitas coisas que na Europa seriam chamadas de bruxaria. Não se deve confundi-lo com o vodu praticado no Haiti, uma religião cujas raízes estão na África.

Por que essas crenças não apenas florescem, mas se expandem numa civilização tão complexa como a americana? E por que profissionais liberais e integrantes de classes especializadas na Grã-Bretanha participam de covens, como constatou uma pesquisa recente encomendada por um jornal nacional respeitável?

Refletindo sobre essa pergunta, sinto que não existe uma resposta única e pronta. Estamos lidando com algo mais profundo que a consciência comum.

Parte da resposta, sem dúvida, está no fato de essas pessoas terem descoberto por experiência própria que os antigos “poderes da bruxaria” funcionam. O materialista espertalhão pode zombar. Um psicólogo do tipo mais superficial pode tentar explicar tudo de outra maneira. Séculos de experiência humana, de todas as épocas e países, contradizem ambos.

Mas há muito mais que isso. As pessoas começam a perceber que os benefícios da civilização moderna trouxeram consigo perigos; alguns evidentes, como os associados à descoberta da energia nuclear, e outros mais sutis.

Existe o perigo de perder o contato com a Natureza, de ficar “órfão da Grande Mãe”. O perigo de se tornar apenas mais um participante da competição materialista desenfreada.

Hoje a religião ortodoxa é questionada até pelos próprios homens da Igreja. Sobretudo os mais jovens não se deixam convencer pelos dogmas religiosos. Querem algo diferente, algo que apele aos níveis mais profundos da imaginação e dos sonhos.

Um dos atrativos fundamentais da bruxaria é que, além das práticas mágicas e da busca por poderes supranormais, ela constitui em si mesma um culto religioso.

Margaret Murray esclareceu isso em sua obra clássica, The Witch Cult in Western Europe. Ela definiu as práticas mágicas como Bruxaria Operativa. Às crenças e aos ritos religiosos do Culto Diânico, deu o nome de Bruxaria Ritual.

O Culto Diânico recebe seu nome da deusa lunar Diana, encontrada por toda a Europa Ocidental como divindade feminina ou dirigente das bruxas.

O deus desse culto costuma ser representado com chifres, símbolo primitivo de poder. Como a deusa, ele tem muitos nomes. Talvez aquele que melhor comunique ao leitor comum a ideia de sua natureza seja Pã.

Essas divindades são personificações de forças presentes na vida da Natureza. Alguns leitores com experiência prática no Ocultismo compreenderão o que quero dizer ao chamá-las de “imagens mágicas”.

A bruxaria é, na verdade, tão simples ou tão complicada quanto as pessoas desejem torná-la.

Ela apela ao amor pelo misterioso. Não sabemos, por exemplo, por que meios surgem visões num cristal ou espelho mágico durante um ritual. Mas posso testemunhar pessoalmente que elas surgem.

O propósito do ritual é criar uma atmosfera. Estar dentro do círculo mágico, iluminado por velas e respirando as emanações do incenso estimula a imaginação. Nessas circunstâncias, pessoas perfeitamente comuns podem descobrir em si recursos que antes desconheciam.

No início deste ano, participei de um rito de esbat de lua cheia em Sussex. Durante a cerimônia, fui convidada a olhar para uma esfera de vidro verde-escuro usada como instrumento de vidência.

Após alguns instantes, vi nela uma paisagem com estranhas rochas desgastadas pelo tempo, espalhadas pelo terreno. A imagem era vívida e me transmitiu a ideia de que, embora aquelas pedras fossem uma formação natural, em algum momento haviam sido utilizadas para ritos religiosos.

Algumas semanas depois, tirei férias na Cornualha. Ao passar de trem por um pequeno lugar chamado Luxulyan, fui tomada por uma forte sensação de estranheza. Percebi que ali estava a paisagem que eu havia visto nas profundezas da esfera de vidro verde.

É um curioso vale rochoso, possivelmente o leito de um antigo rio. Eu nunca estivera antes na Cornualha, nem tinha visto fotografias daquele pequeno lugar um tanto afastado. Seria interessante saber se minha impressão a respeito dele estava correta.

O motivo de relatar esse pequeno episódio é que ele aconteceu com alguém que não pode reivindicar qualquer grau extraordinário de clarividência. Eu teria alcançado o mesmo resultado na atmosfera friamente científica de um laboratório de pesquisas psíquicas? Duvido.

O encontro de esbat acontece a cada lua cheia. Os sabás são ocasiões mais importantes. Os Grandes Sabás são a Véspera de Maio (30 de abril), Lammas (1º de agosto), Halloween (31 de outubro) e Candlemas (2 de fevereiro). Os Sabás Menores são o solstício de verão, chamado Beltane; o solstício de inverno, chamado Yule; e os equinócios de primavera e outono, que provavelmente tiveram nomes especiais, hoje esquecidos.

A manutenção dessas antigas celebrações rituais, ainda que se trate apenas de uma pequena cerimônia social “para dar sorte”, nos liga às grandes forças naturais que produzem a mudança das estações. Deixamos de ser moradores urbanos tão ressequidos quando as fases crescente e minguante da lua significam algo para nós, mesmo que precisemos observá-la surgindo acima das chaminés.

Se alguma vez nos alegramos com o aroma de uma fogueira; ou contemplamos, com o coração apertado, os galhos nus das árvores negros contra a lua no Halloween; ou sentimos o desejo de cultuar deuses mais antigos, simples e bondosos, sabemos por que a bruxaria continua viva.

Entretanto, quase tudo neste mundo possui um lado sombrio e outro luminoso. Não pretendo esconder que, sendo a natureza humana como é, algumas práticas realizadas hoje na Grã-Bretanha merecem ser chamadas de Magia Negra. São versões distorcidas e pervertidas da verdadeira e antiga Arte dos Sábios.

Menciono-as aqui somente para distingui-las das tradições da bruxaria branca. Estas não envolvem sacrifícios de sangue, profanação de sepulturas nem orgias degradantes. Na verdade, quem se interessa por essas coisas talvez fique bastante decepcionado ao descobrir o que realmente acontece num coven de bruxaria branca.

Legenda original da fotografia — tradução

Usando um colar de “pedras de bruxa” mágicas de Sussex, a sra. Valiente ergue um athame, a faca ritual com que se traça o círculo, e um sino cuja empunhadura tem a forma de um casco fendido. Sobre a mesa estão: um incensário, um saleiro em forma de crânio, um frasco de cinco pontas com óleo de unção e uma varinha terminada numa mão que faz o sinal dos chifres, ou Mano Cornuta. À direita, o livro ritual, um athame de bronze e um pentáculo gravado; à esquerda, uma bola de cristal, uma tigela para água consagrada e uma corda de seda usada nos rituais.

Notas editoriais

Nota histórica: A identificação de Beltane como solstício de verão reproduz o texto impresso. Na classificação usual dos oito festivais da Wicca, Beltane corresponde ao começo de maio. Também foram preservadas, como posições históricas da autora em 1964, suas referências às teses de Margaret Murray.

A existência, a autoria, a data e a digitalização de duas páginas são confirmadas pelo arquivo The Wica. The original printed title is “Why Witchcraft?”. A autorização de publicação foi confirmada pelo responsável pelo acervo.

Créditos e navegação

Fac-símile digital disponibilizado pelo arquivo The Wica. Transcrição, tradução e notas editoriais: Coven Speculum Lunae.

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Ficha correspondente em inglês ↗