SPECULUM LUNAE · HISTORICAL SOURCES

Moro com uma bruxa

Beyond · Outubro de 1968 · Raymond Buckland (depoimento em primeira pessoa)

Apresentação histórica

Publicado na revista Beyond em outubro de 1968, este relato em primeira pessoa atribuído a Raymond Buckland apresenta ao público a vida religiosa de seu coven e a atuação de Rosemary Buckland, conhecida na Arte como Rowen. O artigo aborda cerimônias, devoção, iniciação, instrumentos, reincarnação e concepções éticas, acompanhando fotografias dos Buckland e de seu ambiente ritual em Long Island.

O documento original

Referência: Raymond Buckland (depoimento em primeira pessoa). I Live with a Witch. Beyond, Outubro de 1968, pp. 106–112.

Ler e baixar o PDF inglês no arquivo The Wica ↗

Tradução completa em português

“E, quando for à loja, é melhor comprar mais algumas velas — amarelas — e conferir se ainda temos incenso e carvão. Eu detestaria ficar sem incenso às duas da manhã!”

Anotei VELAS na lista de compras e desci para verificar o incenso. Sabia que tínhamos carvão suficiente para queimá-lo, porque apenas na semana anterior eu havia comprado uma caixa com cem unidades, daquelas que acendem rapidamente, é claro. Por acaso, também tínhamos bastante incenso. Compramos nosso material numa importante loja de artigos religiosos.

Foi minha esposa quem me pediu que comprasse as velas. Ela é uma bruxa: a dirigente, ou alta sacerdotisa, de um grupo de bruxos modernos, coletivamente conhecido como coven. Apresso-me a dizer que minha esposa não é uma velha feia e encarquilhada. Muito pelo contrário. É jovem e, não apenas a meu ver, muito atraente. Usa os cabelos escuros bastante compridos, caindo pelas costas, como fazem muitas moças hoje em dia; portanto, não pode ser apenas isso que a torna uma bruxa.

Afinal, o que faz de alguém uma bruxa?

Bruxa é uma pessoa que pratica bruxaria, que, muito simplesmente, é outra religião, uma religião pré-cristã. Minha esposa, cujo nome na bruxaria é Rowen, dirige o coven no culto aos deuses em que acreditamos.

Digo “deuses”, no plural, porque somos o que se chama de politeístas. Acreditamos na existência de muitos deuses. Isso não é tão difícil para quem está de fora compreender, se pensar no único Deus cristão e no grande número de santos. De maneira semelhante, temos um Deus principal, e os demais são menores e, na verdade, não têm nome. Além de nosso Deus principal, entretanto, também temos uma Deusa. Por se tratar originalmente de uma religião muito próxima da natureza, consideramos que deve haver o masculino e o feminino em todas as coisas, inclusive em nossas divindades. Mais uma vez, um cristão pode pensar na Deusa em termos da figura materna de Maria.

“Você poderia limpar a lâmina da espada”, disse Rowen quando voltei com as velas. A espada é um dos instrumentos de trabalho mais importantes, entre aqueles dispostos sobre o altar. Rowen irá usá-la, como as altas sacerdotisas fazem há séculos, para “traçar” o Círculo, a delimitação ritual do lugar em que ocorrerá o encontro. Antigamente, quando a reunião acontecia ao ar livre, a espada era literalmente fincada no solo, ou no chão de terra da cabana, e traçava-se um círculo aproximado para definir os limites do local do coven. Hoje não temos chão de terra — a menos que as crianças entrem com os tênis enlameados! —, de modo que a marcação é apenas ritual.

Sou o alto sacerdote do coven. Um título pomposo, mas que, na prática, significa que sou pouco mais que um coroinha glorificado. Reponho o incenso, acendo as velas, entrego objetos à alta sacerdotisa e, como acabamos de ver, mantenho os instrumentos de trabalho limpos e reluzentes. Também tenho meus momentos de destaque. Nos meses de inverno — a “metade escura” do ano —, conduzo algumas cerimônias. Como representante de nosso Deus Cornífero, uso um belo elmo com chifres, de tipo viking. Antigamente, muito antes do cristianismo, o ser humano conseguia cultivar alimentos no verão, mas precisava voltar à caça no inverno. Por isso, a Deusa, e sua representante, a alta sacerdotisa, predomina no verão, pois é a deusa da fertilidade, do nascimento e do renascimento, enquanto o Deus predomina no inverno. Ele é um deus com chifres, aliás, simplesmente porque a maioria dos animais caçados tinha chifres.

Que espécie de cerimônias realizamos? Em primeiro lugar, não há beijos no traseiro de bodes, cusparadas sobre cruzes nem qualquer dos outros disparates associados à bruxaria no imaginário popular. Nossa religião é como qualquer outra, no sentido de que somos um grupo de pessoas que se reúne para cultuar à sua maneira. Temos preces e cânticos, celebramos cerimônias diferentes em momentos distintos do ano, procuramos fazer o bem na medida de nossas possibilidades e repudiamos e combatemos o mal.

Uma de nossas crenças é a reencarnação. Quando morremos, todos vamos para a Terra do Verão. Há apenas um lugar, sem Céu e Inferno separados. A Terra do Verão é governada por nosso Deus Cornífero. Hoje, quando os supermercados tornaram desnecessário caçar para se alimentar, o deus tornou-se “o Senhor da Morte e Daquilo que Vem Depois”. Em seu reino, descansamos e nos refazemos, tornando-nos jovens novamente, até renascermos por intermédio da Deusa, a Grande Mãe. Cada encarnação só pode ser melhor que a anterior. Trata-se de um progresso. Não sabemos exatamente quantas encarnações existem.

Outra de nossas crenças é a retribuição nesta vida. Acreditamos que tudo o que fazemos retorna três vezes nesta mesma vida. Faça o bem a alguém e receberá três vezes mais bem em retorno. Mas faça o mal, e ele também voltará triplicado. Assim, uma bruxa não tem incentivo algum para praticar o mal.

Há um fundo de verdade em muitas das ideias populares equivocadas sobre a bruxaria. Tomemos, por exemplo, o voo pelos ares em vassouras. Eu mesmo nunca consegui sair do chão, e Rowen tampouco. E nenhum de nós é particularmente pesado. A verdade é que as bruxas nunca voaram pelo ar montadas em suas vassouras. Montavam nelas, porém — isso é outra história. Antigamente, havia um rito de fertilidade no qual os habitantes das aldeias iam aos campos levando vassouras, forcados e longas varas. Montavam nesses objetos como se fossem cavalos de brinquedo, dançando em círculos pelos campos. Acreditavam que, quanto mais alto saltassem durante a dança, mais altas cresceriam as plantações. Isso é o que se chama “magia simpática”.

A lanterna de Halloween, a Jack-o’-lantern, é outro exemplo do desenvolvimento exagerado de uma antiga ideia da Arte. O Halloween é o mais importante dos oito grandes festivais do ano das bruxas. É o momento em que, segundo acreditam, amigos e entes queridos falecidos retornam para celebrar com elas. Por isso, ao viajar para o sabá, a bruxa levava uma luz que simbolizava o espírito de alguém falecido acompanhando-a. Para que o vento não apagasse a chama, ela era transportada dentro de um nabo ou de uma abóbora escavada. Mais tarde, podia-se entalhar um rosto na casca para aumentar o realismo.

As pessoas perguntam: “Como vocês sabem que são bruxos?” Sabemos porque fomos feitos bruxos. Não basta nascer bruxo ou decidir subitamente que se é um. Como a bruxaria é uma religião, muito semelhante aos antigos Mistérios gregos e romanos, é necessário ser formalmente admitido nela por meio da cerimônia apropriada: uma iniciação. Ela é realizada pelo alto sacerdote e pela alta sacerdotisa do coven ao qual a pessoa pertencerá. A palavra inglesa witch, aliás, é usada para homens e mulheres. Warlock é um termo que, embora tecnicamente correto para designar um bruxo, jamais é empregado dentro da Arte.

A própria palavra witch provém do anglo-saxão wica, ou wicca, que significa “os sábios”. Originalmente, eram chamados de Wica apenas os membros do sacerdócio da Antiga Religião, e eles realmente precisavam ser sábios: além de sacerdotes, também atuavam como médicos, advogados, agricultores e chefes.

Infelizmente, muito do antigo conhecimento sobre ervas dos Wica se perdeu. Algumas altas sacerdotisas se dedicaram a recuperar e aprender tanto quanto possível. Rowen conhece muito bem esse campo. Mas não há dúvida de que boa parte desse saber já não possui utilidade prática real. Acreditamos que, quando estamos doentes, devemos procurar um médico como qualquer outra pessoa. Não temos tabus a esse respeito. Ainda assim, de vez em quando, um antigo remédio popular funciona quando a medicina moderna não consegue. Por exemplo, contra verrugas. Deve haver mais encantamentos populares para tirar verrugas do que revistas numa sala de espera de consultório. Eu mesmo eliminei por encantamento dezenas de verrugas das mãos, braços e pernas das crianças da vizinhança. Certa vez, uma menina cujas verrugas eu havia retirado apareceu à nossa porta acompanhada do pai, visivelmente constrangido. Envergonhado, ele me mostrou duas grandes verrugas na mão direita e, murmurando, pediu que eu as eliminasse como fizera com as da filha!

Dei-lhe o tratamento habitual, e elas desapareceram, para sua surpresa e alegria.

Quais são os atrativos dessa Antiga Religião em nossos tempos modernos? Há muitos. Algumas pessoas são fortemente atraídas por sua simplicidade, pela ausência de pompa e cerimônia, pela naturalidade e pela lógica evidente. Para outras, o atrativo é o tamanho dos grupos. A Arte é, em grande medida, uma religião de participação. Um coven reúne no máximo cerca de doze pessoas. Em vez de permanecer como mero espectador, sentado num banco ao fundo de um grande edifício frio, você está bem no meio de tudo, participando. O coven se reúne dentro de um círculo de apenas nove pés de diâmetro, com o altar no centro. Encontrar repetidamente as mesmas pessoas faz com que o grupo se pareça mais com uma grande família do que com qualquer outra coisa. Desenvolve-se um vínculo maravilhoso de amor e confiança.

Para alguns, o atrativo é a paz e a tranquilidade encontradas no Círculo. Durante os encontros queima-se certa quantidade de incenso, que, junto com a luz suave das velas e talvez uma taça de vinho, produz um efeito calmante e relaxante difícil de encontrar em outro lugar. Dizemos que estamos “entre os mundos” quando estamos no Círculo, e assim parece. Não exatamente no outro mundo, mas afastados das preocupações e dos cuidados deste. Não usamos drogas para atingir esse estado. Não há necessidade de maconha, LSD ou qualquer outra bobagem psicodélica, esotérica ou esquizofrênica. Fazemos nossas “viagens” sem nada disso. Consequentemente, não sofremos ressacas nem perturbações. Sentimos apenas felicidade e contentamento.

Terminei de polir a espada e conferi os demais objetos sobre o altar. As velas haviam escorrido e sido substituídas inúmeras vezes. A massa de cera multicolorida produz um efeito semelhante ao de joias. Brancos e amarelos, castanhos e verdes. Nunca velas pretas! Rowen frequentemente ameaça limpar a cera para poder voltar a ver seus “belos castiçais de estanho”, mas imediatamente surge um clamor de protesto, e eles permanecem cobertos — pelo menos naquela semana. Com tudo pronto, podemos descansar um pouco enquanto aguardamos a chegada dos membros do coven. Eles vêm de carro, ônibus e trem. Ninguém de vassoura. Um grupo alegre de empresários, donas de casa, funcionários, professores e datilógrafos. Têm algo em comum: o amor pela bruxaria e a apreciação mútua de seus benefícios.

Mais uma vez, aproxima-se a hora em que minha esposa conduzirá nosso culto como “Lady Rowen, alta sacerdotisa e Rainha das Bruxas”.

Reunidos reverentemente no Círculo, os participantes observam enquanto invoco a Deusa e peço que Ela desça ao corpo de Rowen. Ouvem Rowen pronunciar as palavras consagradas pelo tempo — o antigo ritual de Puxar a Lua para Baixo, realizado a cada lua cheia:

“Escutai as palavras da Grande Mãe, que antigamente também era chamada entre os homens… por muitos outros nomes. Sempre que tiverdes necessidade de alguma coisa, uma vez por mês — e melhor será quando a lua estiver cheia — então vos reunireis em algum lugar secreto e adorareis o Espírito de Mim, que sou a Rainha de todas as Bruxarias…”

Eles poderão testemunhar, como eu já testemunhei, uma mudança física gradual em sua alta sacerdotisa quando a própria Deusa desce sobre ela. Erguem seus athames — as pequenas facas de cabo preto, instrumentos pessoais de cada bruxo — numa saudação silenciosa. Depois se unem em preces silenciosas pelo futuro da humanidade e dançam ao redor do Círculo, cantando uma canção tradicional.

Por que tudo isso? Como em qualquer outra religião, trata-se de reuniões de pessoas que compartilham crenças e se congregam para o culto. Nestes tempos conturbados, o ser humano procura uma resposta para a própria vida e busca beneficiar seus semelhantes por meio de boas ações e bons pensamentos. Em algum lugar do grande ALÉM existe uma resposta. No coração humano, há tesouros ainda desconhecidos de bondade sem limites. Procuramos descobri-los e usá-los para banir para sempre da Terra o mal que pode ser descrito, em termos gerais, como “a desumanidade do homem para com o homem”.

Pode haver algo de errado nisso? Como disse um de nossos membros: “Isso proporciona uma enorme sensação de bem-estar.”

Notas de edição

O texto é um testemunho religioso e pessoal, publicado em contexto jornalístico. As afirmações sobre a história antiga da Bruxaria e a etimologia de palavras representam a perspectiva de Buckland em 1968. A transcrição deve preservar as legendas das fotografias e o corpo do artigo em seções distintas.

Créditos e origem

Revista original: Beyond. Digitalização disponibilizada por The Wica.

Edição documental com transcrição e tradução para consulta histórica. Os direitos sobre o texto e as imagens originais pertencem a seus respectivos titulares.

Outras versões e documentos

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Edição, transcrição e tradução: Speculum Lunae. Documento de época reproduzido a partir do fac-símile preservado por The Wica.

Legendas do fac-símile

p. 107 — Marido e mulher celebram um rito solene no Museu de Bruxaria e Magia de Long Island.

p. 109 — Depois de um período de intensa concentração, tendo presidido como Rainha Rowen a uma reunião de praticantes de bruxaria, a senhora Buckland descansa em seu jardim de flores e ervas.

p. 111 — Outra típica bruxa moderna é Judith Malis, de Newport Beach, Califórnia. Esposa e mãe, Judith trabalha como engenheira de processos e dirige um carro esportivo. É especialista em preparar poções de amor. Uma delas, composta de folhas de trevo, mel, pétalas de rosas, alecrim e pernas de aranha, é infalível, segundo ela. Quando se oferece a mistura à pessoa amada, fica-se ligado a ela por toda a vida. Não há maneira de desfazer o vínculo, insiste Judith.

As legendas são de responsabilidade editorial da revista. A fotografia de Judith Malis é um quadro independente do depoimento de Raymond Buckland.