
SPECULUM LUNAE · HISTORICAL SOURCES
Bruxas da era espacial
Saga · Março de 1966 · Tom Hyman
Apresentação histórica
Reportagem assinada por Tom Hyman, publicada na revista norte-americana Saga em março de 1966. O texto descreve uma reunião ritual, apresenta interpretações sobre as crenças e práticas da Bruxaria contemporânea e reúne testemunhos de diferentes participantes na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Para o estudo da Wicca Gardneriana, seu valor reside sobretudo no retrato jornalístico de meados dos anos 1960, época de ampliação da visibilidade pública da religião.
O documento original
Referência: Tom Hyman. Space-Age Witches. Saga, Março de 1966, pp. 50–53, 92–96 (numeração original).
Tradução completa em português
Com cânticos misteriosos e ritos de fertilidade realizados em nudez, a sociedade dos feiticeiros protagoniza um retorno extraordinário e já conta com milhares de adeptos somente na Inglaterra. E, por mais estranho que pareça, a turma das vassouras possui alguns praticantes também na América de 1966.
Estamos sentados no chão de uma pequena cabana de um único cômodo, sem janelas, escondida entre as árvores no quintal de alguém. Há outras doze pessoas comigo. É um grupo heterogêneo, que aparentemente tem muito pouco em comum. Todos conversam cordialmente. À minha direita está uma dona de casa na casa dos quarenta anos, um pouco rechonchuda. Ao lado dela, um merceeiro baixo e corpulento, acompanhado da esposa, uma mulher alegre, grávida do quarto filho. Há também um professor universitário, um homem magro, de traços angulosos, óculos sem aro e o hábito nervoso de acariciar o queixo. Do outro lado da sala está outro casal: um jovem estudante de pós-graduação em arquitetura e sua noiva, uma bela loira de cerca de vinte anos. Próximos a eles, um advogado e sua mulher; depois, um homem mais velho, executivo de banco. Perto do centro da sala, um jovem de barba bem aparada, psicólogo, conversa baixinho com outra dona de casa e uma bibliotecária de trinta e poucos anos.
Subitamente, os pequenos sinos de um relógio sobre uma prateleira, junto à parede dos fundos, começam a anunciar as doze badaladas da meia-noite. A conversa cessa bruscamente. Todos se levantam de suas posições confortáveis e se ocupam dos preparativos. Um círculo de giz, com exatamente nove pés de diâmetro, é cuidadosamente traçado no piso de madeira. Em seguida, um altar, constituído por um velho baú com dobradiças de ferro forjado, é levado ao centro do círculo. Sobre ele coloca-se uma vela vermelha, seguida de um incensário, uma tigela de sal, outra de água, um pedaço de cordão, doze facas, uma longa espada de aço, uma vara e, por fim, os doze símbolos pessoais dos participantes. Outras quatro velas são dispostas logo dentro do círculo, nos cantos imaginários.
A dona de casa rechonchuda, alta sacerdotisa do culto, entra então no centro do círculo de giz e retira lentamente toda a roupa, conservando apenas um colar e um bracelete largo de metal. Os outros onze seguem seu exemplo e ficam completamente nus.
Ela acende o incenso, que exala um aroma intenso e almiscarado, enchendo a sala. Depois acende a vela do altar e, com sua chama, as outras quatro velas ao redor do círculo. Feito isso, asperge sal e água das duas tigelas sobre o chão, para “purificar” o círculo.
Os outros onze são admitidos no círculo, um de cada vez. Cada qual apanha uma faca do altar e, de pé e nu, volta-se para a parede leste da cabana, onde algumas estranhas inscrições cabalísticas aparecem pintadas logo abaixo das vigas do teto. A alta sacerdotisa ergue a longa espada e pronuncia uma breve oração, ou encantamento, dirigida aos “Poderosos do Oriente”.
A alta sacerdotisa apresenta então um “problema” para o qual o grupo dirigirá seu “poder”. Naquela noite, trata-se de um homem residente na Califórnia, parente de um dos presentes, que estaria à beira da morte. O grupo direcionará seu “poder” para salvar-lhe a vida, expulsando a doença de seu corpo e restabelecendo sua saúde.
Nesse momento, pedem que eu saia da sala, pois ninguém de fora do culto pode presenciar a execução de determinados ritos secretos. Quando sou readmitido, cerca de quinze minutos depois, os doze participantes estão de mãos dadas ao redor de um círculo e começam a caminhar lentamente em torno do altar. Enquanto andam, entoam um cântico inquietante:
“Eko Eko Azarak, Eko Eko Zomelak, Eko Eko Gananas, Eko Eko Aradia.”
Logo começam a trotar e, depois, a correr. Giram cada vez mais depressa pelo chão da pequena cabana. Seus rostos ficam ruborizados pela excitação e pelo esforço físico. A testa e o peito do merceeiro gordo estão cobertos de suor, e ele respira com dificuldade. O grupo se aproxima do momento mais crítico da cerimônia. Está produzindo aquilo que chama de “poder” e concentrando-o no homem doente na Califórnia.
Mais uma vez, aceleram o ritmo da corrida. Agora soltam as mãos e começam a saltar, primeiro com pulos pequenos, depois cada vez mais altos, tão alto quanto conseguem. O grupo perde a ordem e a sala se transforma num pandemônio de corpos nus saltando, mergulhando, agachando-se e erguendo-se, colidindo uns com os outros e, ocasionalmente, batendo nas paredes ou no altar situado no centro do chão.
De repente, o merceeiro se deixa cair sentado no chão, ofegante. Dois dos demais o seguem e despencam pesadamente. Um minuto depois, todos estão deitados ou sentados pelo círculo, suados, ruborizados e exaustos.
Está tudo terminado. O “poder” foi levantado, a tarefa foi cumprida. Quando todos recuperam o fôlego, a alta sacerdotisa, que também é a anfitriã, serve bolos e vinho. A atmosfera de fervor espiritual e abandono frenético dá lugar a uma convivência descontraída e animada.
Às duas da manhã, todos já estão vestidos e voltando para casa, satisfeitos por terem exercido seus poderes sobrenaturais e contentes em retomar a vida normal até a próxima reunião do culto.
A cena descrita ocorreu em um subúrbio de Londres em setembro do ano passado. Os doze participantes se consideram bruxos. Embora não usem chapéus pretos pontudos nem voem pelo céu da meia-noite em vassouras, acreditam possuir poderes sobrenaturais. Como as bruxas das antigas lendas populares, praticam magia e celebram o Halloween como um dia religioso sagrado. Suas crenças e seus ritos secretos de fertilidade derivariam diretamente do culto pagão da bruxaria, uma religião mais antiga que o próprio cristianismo.
Embora o culto esteja surgindo por toda a Europa ocidental e até aqui, nos Estados Unidos, por enquanto sua maior força está na Inglaterra. Sabe-se da existência de pelo menos quatro grupos, ou “covens”, como são chamados, somente em Londres, e de muitos outros espalhados pelo restante do país. Não possuem autoridade central: cada coven é independente dos demais e tem práticas próprias.
Os covens se reúnem uma vez a cada mês lunar, geralmente aos sábados, para realizar ritos semelhantes em termos gerais, embora não necessariamente nos detalhes, à reunião descrita acima. Essas ocasiões, chamadas “esbás”, acontecem sempre sob o mais absoluto segredo.
Quatro vezes por ano, as bruxas realizam festividades mais elaboradas, chamadas “sabás”, que incluem, entre outras coisas, cerimônias secretas de iniciação para novos bruxos que ingressam no coven. Esses quatro dias sagrados são a Candelária (31 de janeiro), a Véspera de Maio (30 de abril), Lammas (31 de julho) e, naturalmente, Halloween (31 de outubro). Diferentemente dos esbás, os sabás acontecem, sempre que possível, ao ar livre, geralmente numa clareira na floresta onde se possa acender uma fogueira para dançar ao seu redor.
(A palavra inglesa witch, aliás, seria uma corrupção do termo anglo-saxão wicca, que significa “sábio”. Embora se pense geralmente nas bruxas como mulheres, o nome também se aplica aos homens. Os bruxos do sexo masculino às vezes são chamados de warlocks.)
Esses novos cultos pagãos fizeram ferver um caldeirão de escândalos na imprensa diária britânica. Um dos assuntos mais picantes é o fato de alguns bruxos realizarem suas cerimônias em nudez. Como os ritos são reconhecidamente de fertilidade e acontecem em grande segredo, os jornais insistem que nessas reuniões mensais ocorre muito mais do que cânticos e danças.
Outra questão controversa diz respeito à crença dos bruxos de que possuem poderes mágicos, algo particularmente ofensivo à Igreja da Inglaterra. O cônego Marcus Knight, cônego e chanceler da Catedral de São Paulo, declarou: “A Igreja sempre combateu a bruxaria. Ela é perigosa porque constitui uma forma de magia, uma tentativa de influenciar a natureza por meio de ritos de fertilidade.”
“Ao longo dos séculos, essas coisas sempre caminharam de mãos dadas com práticas sexuais desinibidas. Pois o ato sexual está ligado à fertilidade… É um retorno ao primitivo.”
Ninguém contestaria que a prática da bruxaria é primitiva. Suas origens antecedem a história registrada. Havia feiticeiros no antigo Egito, e tanto gregos quanto romanos praticavam bruxaria. Antes da expansão do cristianismo, alguma forma de bruxaria teria sido a única religião praticada pelas diferentes tribos bárbaras que se estabeleceram na Europa e nas Ilhas Britânicas.
Durante toda a Idade Média, a bruxaria e o cristianismo travaram um conflito. A Igreja cristã, por meio do medo, da Inquisição, de torturas horríveis, enforcamentos e mortes na fogueira, finalmente teria conseguido eliminar o culto pagão. Apenas em 1950 as últimas leis inglesas contra a bruxaria foram revogadas.
Agora a bruxaria está ressurgindo. Seja qual for a razão, o antigo culto cresce. Estima-se que somente na Inglaterra existam atualmente de seiscentos a seis mil bruxos praticantes, número que aumenta continuamente.
Uma das bruxas inglesas mais proeminentes é a senhora Ray Bone, que administra uma casa de repouso para idosos em Londres. Mulher de voz grave e corpo algo corpulento, na casa dos quarenta anos, a senhora Bone é alta sacerdotisa de seu próprio coven, que se reúne aos sábados à noite numa pequena cabana no interior de Lucket Wood, Hertfordshire, região próxima de Londres. Os outros onze membros — tradicionalmente, um coven teria doze ou treze pessoas — incluem um pesquisador universitário, um servidor público, um eletricista, um comerciante, um professor, um advogado, um funcionário do governo local e dois jovens recém-formados. (Um deles, uma moça de pouco mais de vinte anos, disse-me que seus pais ficariam furiosos se soubessem de seu envolvimento.)
A senhora Bone logo impressiona por ser tão pouco sinistra, tão sincera e respeitável, que se torna difícil imaginá-la como bruxa. Quando conversei com ela, estava ocupada folheando anúncios de imóveis para encontrar uma garagem ou outro prédio grande o bastante para as reuniões mensais regulares do coven. O problema com a cabana atual, explicou, era que mal havia espaço para traçar o círculo prescrito de nove pés, e as vigas do teto eram tão baixas que vários bruxos haviam batido a cabeça ao saltar.
A senhora Bone disse que era bruxa porque acreditava que esse era o caminho certo para ela. “Cultuamos a fonte da vida. Nosso Deus, Deus da fertilidade, representa para nós tanto a vida quanto a morte. Não o tememos porque acreditamos na reencarnação.”
O coven da senhora Bone tem recebido consideráveis críticas por celebrar seus ritos em nudez. Ela respondeu que cultuam dessa maneira porque isso representa o abandono das coisas materiais. “Parece-me óbvio que as pessoas podem ser tão imorais vestidas quanto despidas.”
Falando com segurança e eloquência convincente, explicou o propósito de seus rituais mágicos. Durante a dança e os cânticos, um “poder” é trazido e canalizado pela alta sacerdotisa para atingir o objetivo escolhido pelo coven. “O poder”, disse a senhora Bone, “está nas profundezas de nós mesmos; por meio dos rituais, liberamos essa energia. No círculo, não somos humanos: estamos entre dois mundos.”
Ela acredita que o poder da bruxaria está latente em todas as pessoas que pensam e sentem. “O sentimento é muito mais importante que o intelecto.”
O coven pode se concentrar na cura, mental ou física, ou na resolução de problemas conjugais e financeiros. A senhora Bone acredita que conseguem direcionar o poder a quase qualquer dificuldade e obter êxito. Como prova, relatou o caso de uma menina gravemente doente. A pedido do pai, o coven reuniu-se e invocou o “poder”. Depois souberam que a menina começara a melhorar no exato momento em que haviam concentrado suas energias nela.
Nenhum dos integrantes do coven parecia ter ideias muito definidas sobre a vida após a morte. Todos aceitam a reencarnação, mas cada um aparentava possuir uma ideia diferente de como ela ocorreria. Poucos apresentaram concepções claras acerca de questões teológicas clássicas, como criação ou evolução. “Preferimos acreditar que a ciência pode explicar todos os fenômenos naturais, mas que existe alguma fonte de vida que não pertence a este mundo”, comentou um deles.
A senhora Bone enfatizou que, para além dos rituais formalizados, a bruxaria era essencialmente uma religião pessoal. “Não há um código moral propriamente dito”, disse. “Se não prejudica ninguém, faça o que desejar.”
Quanto à acusação de que seu culto praticaria magia negra, a senhora Bone afirmou enfaticamente que todos estavam comprometidos a respeitar a vida em todas as suas formas. Consideravam-se bastante liberais quanto à maioria dos problemas sociais e não tinham interesse em prejudicar os outros recorrendo ao diabolismo ou lançando malefícios. “O progresso da civilização”, disse, “acabou com muitas coisas naturais nas pessoas. Somente levando uma vida suficientemente simples conseguiremos voltar à antiga existência. É isso que buscamos.”
Para ingressar no coven da senhora Bone, o candidato frequenta reuniões semanais até que os membros estejam convencidos de sua sinceridade, entusiasmo e boa convivência. Consideram-se um círculo fechado de amigos e sentem que precisam manter essa harmonia para trabalhar com eficácia. Quando o candidato é aceito, deve aguardar o próximo grande sabá, quando as cerimônias secretas de iniciação podem ser realizadas. Todos os integrantes do coven estão proibidos de discutir esses ritos com pessoas de fora.
Outra alta sacerdotisa que entrevistei foi a senhora Lois Pearson, uma dona de casa de cabelos escuros e pele bronzeada, com pouco mais de trinta anos, que vive com o marido, dois filhos e um gato siamês de três patas numa casa geminada em St. Albans. O gato, informou-me, desempenha um papel muito importante nas cerimônias. Quando o coven entra em transe, as almas dos membros deixam momentaneamente seus corpos e ficam expostas ao risco de se perderem. O gato comparece aos encontros para guardar e proteger essas almas.
Assim como a senhora Bone, a senhora Pearson me pareceu uma pessoa bastante comum, sem nada de sobrenatural, fanático ou misterioso, e certamente sem nada que lembrasse uma bruxa. Ainda assim, tal como a senhora Bone, é uma devota praticante das magias ocultas da bruxaria.
A senhora Pearson afirmou que seus métodos eram mais avançados que os da senhora Bone. Para começar, seu coven não trabalha em nudez. “Somos mais desenvolvidos. Usamos os poderes da mente”, disse.
Alguns de seus rituais também eram bastante diferentes. Os membros do coven da senhora Pearson jejuam durante três dias antes de cada reunião. Durante os rituais, praticam exercícios de respiração profunda semelhantes aos dos dervixes. Isso os conduz a um estado de transe que dura de quinze a trinta minutos, durante o qual “saímos de nossos corpos. Nossa alma, ou corpo astral, deixa o corpo físico e viaja para qualquer tempo ou lugar. Estamos num estágio intermediário entre este mundo e outro. É um orgasmo espiritual.”
Quando o coven atinge esse estado de frenesi, explicou a senhora Pearson, seus membros emitem poder psíquico, como um gerador que produz eletricidade. A alta sacerdotisa então interrompe a cerimônia e dirige o poder para o objetivo previamente estabelecido.
Ao contrário da senhora Bone, a senhora Pearson não acredita que qualquer pessoa possa desenvolver os poderes da bruxaria. “Não é possível transformar pessoas em bruxas”, disse. “Não é um processo de aprendizagem, e sim de recordação.”
Segundo sua teoria, o número total de bruxos é permanentemente limitado. Quando um deles morre, renasce mais tarde neste mundo por meio da reencarnação. Em outras palavras: uma vez bruxo, sempre bruxo. O coven da senhora Pearson não tenta encontrar esses verdadeiros bruxos. Prefere deixar que encontrem seu próprio caminho até o grupo.
Quando alguém se aproxima para ingressar, o coven testa seus poderes levando o novato, à noite, a uma clareira isolada na floresta, colocando-o dentro de um círculo mágico de pedras e deixando-o ali. A senhora Pearson afirma conseguir determinar, pelo relato do candidato ou por suas atitudes, se é um verdadeiro bruxo. Estes aparentemente experimentam o que ela descreve como uma “sensação maravilhosa”: um contato com o sobrenatural.
A teologia da senhora Pearson é um pouco mais desenvolvida que a da senhora Bone. Ao explicar a vida após a morte, afirmou: “Quando morremos, a alma vai a um plano astral onde é julgada. No momento em que entra nesse plano, contempla seu registro akáshico, isto é, uma retrospectiva de toda a vida. Então torna a sentir toda a dor que causou aos outros, mas as alegrias são sentidas cem vezes mais intensamente. Essa é a sua recompensa e sua punição. A alma permanece então nesse outro mundo, livre para viajar e encontrar as almas de parentes que já estão ali. Pode ficar nesse lugar de quinhentos a mil anos. Depois renasce na Terra.”
O coven da senhora Pearson acredita num Ser Supremo, uma deusa que é ao mesmo tempo Mãe Terra e Vênus. Trata-se de uma deusa pessoal que atua diretamente por intermédio de cada indivíduo.
A cura e a ajuda aos outros, objetivo principal do coven da senhora Bone, são apenas consequências secundárias para a senhora Pearson e seus seguidores. Seu propósito último é simplesmente o culto à Deusa, as experiências místicas associadas e a aquisição da sabedoria desenvolvida por esse culto.
Quanto à magia negra, a senhora Pearson acredita que ela existe, mas está convencida de que qualquer bruxo que faça mau uso de seus poderes, envolvendo-se com magia negra ou diabolismo, acabará sofrendo as consequências.
Se alguns bruxos praticam magia negra secretamente — e, se o fazem, têm todos os motivos para manter isso em segredo —, poucas pessoas parecem se preocupar com a possibilidade de que essa antiga feitiçaria realmente cause algum mal. Evidências de magia negra aparecem de tempos em tempos. O Museu da Bruxaria em Gloucestershire, Inglaterra, possui vários exemplos notáveis de magia negra moderna, entre eles uma coleção de bonecos e efígies de vítimas, alguns atravessados por facas, outros feitos com cabelo e roupas das pessoas visadas, e assim por diante.
Recentemente, ocorreu um episódio de magia negra em Oxford, cidade da famosa universidade. Havia grande resistência dos moradores à construção de uma via de contorno que o departamento de estradas abria na cidade. Certa manhã, os operários encontraram no local um galo preto com a garganta cortada e a faca ainda cravada nele. Ao lado da ave, encontraram uma vela preta fincada no chão e um bilhete que dizia: “O que acontecer ao galo, aconteça também aos operários que prosseguirem com esta estrada.”
Até as últimas notícias, a estrada continuava sendo construída sem nenhum efeito negativo aparente sobre os trabalhadores. Episódios semelhantes ocorrem com frequência.
Quanto aos próprios bruxos, tem-se a impressão de que toda essa atividade envolve mais diversão e jogos do que religião séria. Parece-se mais com pertencer a associações como os Elks, os maçons ou os Shriners: muitos encantamentos e cerimônias secretas, a oportunidade de usar trajes especiais e um lugar para encontrar amigos e se divertir. Todos gostam de pertencer a alguma coisa e, se isso oferecer uma sensação de exclusividade e algumas emoções, por que não? Ainda não foi comprovado se alguns desses covens também são clubes sexuais, como muitos afirmam.
Seja o que for a bruxaria de hoje, no passado ela certamente envolvia mais do que diversão e jogos. Os supostos crimes das bruxas medievais — destruir plantações, provocar abortos e impotência, causar doenças no gado, levantar ventanias para naufragar navios e matar com imagens de cera — eram considerados pecados do Diabo, e a Inquisição, sobretudo por meio da tortura, conseguia levar um número surpreendente de pessoas a confessar esses atos.
Eis uma narrativa do século XVI sobre um sabá medieval de bruxas, feita por alguém que teve o infortúnio de se deparar com um deles durante a noite. O relato, escrito por Bartolomeo de Spina em 1533, foi retirado do livro The History of Witchcraft, de Montague Summers:
“Certo camponês, que morava em Clavica Malaguzzi, no distrito de Mirandola, precisou levantar muito cedo numa manhã para seguir até uma aldeia vizinha. Por volta das três horas, antes do amanhecer, encontrou-se atravessando uma vasta extensão de terra desabitada entre ele e seu destino. Ao longe, percebeu subitamente o que pareciam ser inúmeras luzes de fogo deslocando-se de um lado para outro. Ao aproximar-se, viu que eram grandes lanternas conduzidas por um grupo de pessoas que se moviam para cá e para lá nos labirintos de uma dança fantástica, enquanto outras, como num piquenique campestre, estavam sentadas, comendo iguarias e bebendo canecas de vinho, ao som de uma música áspera, semelhante ao grito de uma gaita, que ressoava pelo ar. Curiosamente, ninguém dizia uma palavra; o grupo girava e rodopiava, comia e bebia num silêncio estranho e significativo. Percebendo que muitos, sem qualquer pudor, entregavam-se à mais desenfreada devassidão e praticavam publicamente o ato sexual com toda espécie de indecência, o observador horrorizado compreendeu que testemunhava os festejos do sabá. Fazendo fervorosamente o sinal da cruz e recitando uma oração, afastou-se o mais depressa possível do lugar amaldiçoado, mas não antes de reconhecer entre os presentes alguns malfeitores conhecidos e moradores das redondezas que já estavam sob grave suspeita de feitiçaria.”
Os sabás de bruxas do passado eram conhecidos por incluir, além dos cânticos, danças e queima de incenso, práticas como flagelação, evocação de espíritos, agitação de caldeirões, banquetes de amor e exposição a diferentes perigos, para conduzir as bruxas ao estado extático que lhes permitiria produzir poder mágico. Suspeita-se que os bruxos modernos realizem essas mesmas cerimônias durante seus sabás.
Como no passado, os bruxos modernos guardam seus segredos com zelo. Nenhum daqueles com quem conversei quis discutir ritos mágicos ou os detalhes de sua magia curativa, ou “branca”. Descobri ser ainda mais difícil obter informações sobre magia negra. Era um assunto que todos desejavam evitar.
Não existe um livro único para os cultos modernos de bruxaria, mas existem diversas obras medievais e contemporâneas sobre feitiços, diabolismo e outras fórmulas de magia secreta. A fonte mais autorizada e infame de magia negra estaria nos chamados “Livros Negros”, compilações em formato quarto de encantamentos maléficos para toda ocasião, com instruções explícitas de execução. Depois de alguma dificuldade, consegui consultar alguns exemplares. Sua leitura é fascinante, quer se acredite neles, quer não.
Segue uma pequena seleção, em paráfrase, de algumas dessas receitas antigas e maléficas consideradas mais úteis.
A primeira provavelmente sempre foi uma das preferidas. Ensina como descobrir se uma moça ainda é virgem: reduza a pó um pouco de pólen de lírio e encontre uma oportunidade de fazê-la ingeri-lo sem que saiba, misturando-o, por exemplo, a uma bebida ou alimento. Se não for virgem, será tomada por uma vontade irresistível de urinar.
Os livros oferecem vários métodos para fazer uma mulher sucumbir aos encantos de alguém. Eis um relativamente fácil. Pegue o fígado de um pombo e o cérebro de um melro, seque-os e reduza-os a pó fino. Depois espalhe o pó sobre a comida da moça. Resultado: amor instantâneo.
Quando ela estiver perdidamente apaixonada, você desejará que continue assim. Para garantir sua fidelidade, os Livros Negros recomendam retirar uma mecha de seus cabelos, queimá-la e espalhar as cinzas sobre as partes de madeira de sua cama, certificando-se antes de ter esfregado esses pontos com mel. Ela então não conseguirá sonhar com ninguém além de você. Repita o procedimento de tempos em tempos, conforme necessário.
Para uma contracepção eficaz, os Livros Negros recomendam que a mulher simplesmente beba o sangue de um carneiro ou de um coelho.
Passando a assuntos mais sombrios, você quer se proteger de alguém que pretenda lhe causar mal? Escreva seu nome numa folha de verbena usando o sangue de um corvo ou de uma galinha branca. Leve sempre a folha consigo, e ninguém poderá feri-lo.
Outra proteção considerada infalível é carregar o olho de um lobo dentro de um anel de ferro. Onde conseguir o olho fica por sua conta.
Os livros apresentam vários métodos para ganhar em jogos de azar. Eis um de que gosto: na primeira quinta-feira da lua nova, na hora de Júpiter, antes do nascer do sol, escreva as seguintes palavras num pedaço de pergaminho virgem: Non licet ponare in egarbond quia premium sanguinis. Depois coloque uma cabeça de serpente no centro da inscrição e dobre os quatro cantos do pergaminho sobre ela. Sempre que desejar apostar, amarre esse objeto ao braço esquerdo com uma fita de seda vermelha, e ninguém além de você vencerá. No mínimo, arrancará alguns comentários interessantes.
Se tudo isso lhe parece brincadeira de criança, talvez queira experimentar o envoûtement, a arte de provocar a morte de alguém por meios invisíveis. Eis um dos principais encantamentos para essa tarefa de magia negra: obtenha um pouco da urina da pessoa que deseja matar (resolva isso por conta própria). Depois compre um ovo de galinha sem pechinchar o preço e vá à noite, numa terça-feira ou num sábado, até um campo distante de qualquer habitação humana. Se não houver lua, leve uma lanterna. Faça uma incisão circular na extremidade mais larga do ovo e retire toda a clara, deixando a gema. Encha novamente o ovo com a urina, pronunciando o nome do condenado, e vede a abertura com um pedaço de pergaminho virgem úmido. Feito isso, enterre o ovo no campo e afaste-se sem olhar para trás. Assim que o ovo começar a apodrecer, a vítima será acometida de icterícia, e nada poderá curá-la a menos que você próprio retire o ovo da terra e o queime. Se permitir que o ovo apodreça por completo, a pessoa sobre quem lançou o encantamento morrerá dentro de um ano.
Esses são alguns exemplos. Existem centenas de outras fórmulas seculares de magia negra. Funcionam? Há pelo menos alguns milhares de pessoas vivas hoje que afirmam que sim. Algumas delas, como o indivíduo desconhecido que deixou um galo preto morto no caminho dos operários de Oxford, estão colocando esses encantamentos em prática. Talvez alguém até esteja lançando um sobre você. Sinta-se livre para tentar o mesmo. Os poucos aqui mencionados já lhe darão um bom começo. Mas lembre-se: você estará fazendo um pacto com o Diabo.
Notas de edição
Nota histórica: A matéria data a revogação da legislação britânica sobre bruxaria em 1950; a revogação da Witchcraft Act de 1735 ocorreu com a Fraudulent Mediums Act, de 22 de junho de 1951. As demais afirmações históricas e mágicas permanecem como enunciados da reportagem, não como conclusões do Speculum Lunae. Fontes: Parlamento britânico.
A publicação apresenta enquadramento jornalístico sensacionalista e usa generalizações sobre bruxos e rituais. Algumas páginas do PDF são montagens de recortes das páginas originais, com ilustrações e anúncios. A transcrição mantém a ordem da reportagem e separa o texto principal dos anúncios e ilustrações, preservando as declarações impressas.
Créditos e origem
Revista original: Saga. Digitalização disponibilizada por The Wica.
Edição documental com transcrição e tradução para consulta histórica. Os direitos sobre o texto e as imagens originais pertencem a seus respectivos titulares.
Outras versões e documentos
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Edição, transcrição e tradução: Speculum Lunae. Documento de época reproduzido a partir do fac-símile preservado por The Wica.
